A Fundação Casa de Rui Barbosa, vinculada ao Ministério da Cultura, anunciou nesta sexta-feira (31) que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o ex-ministro José Dirceu (PT) estão entre os agraciados com a “Medalha Rui Barbosa de 2025”. Para boa parte da população, a notícia soa como a consagração oficial do mal, uma afronta à história e aos valores éticos que Rui Barbosa representou.
Em nota, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, afirmou que a honraria é uma “forma de celebrar o valor da cultura como pilar da democracia e da cidadania”. A justificativa, porém, soa como ironia diante dos nomes escolhidos. É difícil ver democracia ou ética quando um dos homenageados foi condenado no escândalo do Mensalão — um dos maiores esquemas de corrupção da história — e o outro é símbolo de um Judiciário que age politicamente, censura opiniões e persegue adversários ideológicos.
O presidente da Fundação, Alexandre Santini, tentou justificar a escolha dizendo que a edição deste ano “reconhece pessoas e instituições cuja atuação reflete o compromisso com a cultura, a democracia, a diversidade e a memória histórica do país”. Na prática, soa como uma tentativa de reescrever a história, premiando justamente aqueles que mais contribuíram para degradar a confiança do povo nas instituições.
Segundo a nota oficial, a medalha reconhece trajetórias que “refletem os princípios humanistas e republicanos de Rui Barbosa: ética pública, pensamento crítico e compromisso com a cultura como dimensão essencial da vida democrática”. A contradição é gritante: Rui Barbosa, que defendeu a liberdade e a moral pública, agora tem seu nome usado para exaltar figuras ligadas à censura e à corrupção.
Em 2005, José Dirceu teve o mandato cassado por envolvimento direto no Mensalão. Preso em 2013, foi considerado um dos líderes do esquema de compra de apoio político no Congresso. Anos depois, beneficiou-se de anulações e decisões judiciais que apagaram suas condenações — mais um retrato da impunidade das elites políticas. Agora, é celebrado como exemplo de ética e cultura, enquanto cogita retornar à política em 2026.
Alexandre de Moraes, por sua vez, se tornou o rosto de um Supremo que concentra poder, silencia críticos e ameaça liberdades fundamentais. Premiar o ministro com uma medalha que leva o nome de Rui Barbosa — um dos maiores defensores da liberdade de expressão — é, para muitos, o cúmulo da hipocrisia institucional.
A lista completa reforça o viés ideológico do evento. Entre os agraciados estão os deputados Chico Alencar (PSOL-RJ) e Daniel Soranz (PSD-RJ), o teólogo Frei Betto e entidades alinhadas ao discurso político da esquerda, como a Associação Juízes e Juízas pela Democracia e a campanha Sem Memória Não Há Democracia, ligada à militância de direitos humanos de viés seletivo.
Ao usar o nome de Rui Barbosa — símbolo da honestidade, do pensamento livre e da justiça — para celebrar figuras que representam o autoritarismo, o relativismo moral e a corrupção, o governo transforma o prêmio em uma caricatura. O que deveria ser uma celebração da cultura e da ética virou, para muitos brasileiros, um ritual cínico de autocondecoração de uma elite política que perdeu qualquer senso de vergonha.
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”
RUI BARBOSA