O pedido de impeachment de Alexandre de Moraes chegou a ter 41 assinaturas, mas nunca foi à frente. Mas esse quórum era uma sinalização positiva. Afinal, imaginar que metade do Senado teria coragem de abrir um processo de apuração sobre a conduta arbitrária de um ministro do Supremo servia como uma espécie de suporte emocional, alimentava alguma esperança de que o Brasil pudesse recuperar a democracia em breve – nas próximas eleições quem sabe.
Essa esperança acabou hoje. A recondução de Paulo Gonet com 45 votos favoráveis e apenas 26 contrários demonstra que esses votos nunca existiram de fato e que não adianta culpar apenas Davi Alcolumbre. É um choque de realidade, um balde de água gelada. A luz no fim do túnel se apagou, definitivamente.
Eu poderia ficar aqui estimulando sua indignação, repetindo declarações fortes de senadores, como Sergio Moro, Flávio Bolsonaro e Magno Malta, que tiveram a coragem de estampar na cara de Gonet a realidade de sua gestão: um Ministério Público apequenado, tímido, covarde, verdadeira correia de transmissão do STF.
Muitos vão dizer que não é bem assim, que o jogo está virando, já que, na primeira indicação há dois anos, Gonet recebeu 65 votos favoráveis e apenas 11 contrários. Sim, de fato, é uma imensa reversão de expectativas. Sim, Gonet perdeu apoio. Mas não o suficiente para impedir sua recondução por mais dois anos.
E se a oposição não teve número hoje para barrar Gonet, tampouco terá para barrar Jorge Messias ou Rodrigo Pacheco, seja quem for o indicado de Lula para a vaga de Luís Roberto Barroso. E se Lula negociar a aposentadoria antecipada de mais um ou dois ministros, a situação se repetirá e teremos o cenário dantesco que vislumbrei meses atrás.
Lula, o PT e a esquerda indicarão nomes de aliados jovens, que ficarão no Supremo pelos próximos 30 ou 40 anos. Duas novas indicações até o fim de seu mandato são o suficiente para tirar do próximo presidente, seja de direita ou de centro-direita, o poder de indicar novos ministros.
Como eu disse dias atrás, o problema do Brasil não são exatamente as leis, mas sua aplicação. Sem uma mudança de mentalidade na cúpula do Judiciário, o Brasil permanecerá em sua trajetória autoritária. Esqueçam anistia, impeachment ou… liberdade.