A aprovação da recondução de Paulo Gonet ao cargo de Procurador-Geral da República (PGR), ontem, representa mais do que um simples ato administrativo do Senado Federal. É um retrato explícito da degradação institucional que tomou conta do país e da subserviência política de uma Casa que, constitucionalmente, deveria conter os abusos de outros poderes. Ao invés disso, o Senado se mostra cúmplice — por omissão, covardia ou conveniência — da escalada autoritária que hoje domina o cenário brasileiro.
Gonet, ao longo de seu mandato, tem sido conivente com atos flagrantemente inconstitucionais e abusivos praticados por Alexandre de Moraes e outros ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Em vez de exercer o papel constitucional de guardião da lei e da ordem jurídica, a Procuradoria-Geral da República tem se tornado um instrumento de chancela de perseguições políticas, de prisões sem devido processo legal e de silenciamento de opositores, especialmente daqueles ligados à direita e ao conservadorismo.
A recondução de Gonet, aprovada pela maioria dos senadores, escancara a face real de um Senado formado, em boa parte, por membros que devem algo à própria Justiça ou temem as represálias de um sistema judicial aparelhado. É um retrato de um poder legislativo acuado, incapaz de cumprir sua função de freio e contrapeso em relação ao Supremo Tribunal Federal. A chamada “Casa da Federação” tornou-se, na prática, um coadjuvante da ditadura de toga que se impõe sobre a nação.
Essa complacência política também revela a profundidade da influência do regime petista, que vem se consolidando não apenas no Executivo, mas nas instituições de controle, justiça e fiscalização. O resultado é um Estado onde as liberdades civis estão sob cerco, o direito à opinião é criminalizado e a Constituição é tratada como mera formalidade.
Com esse cenário, a esperança de que o Brasil volte a ser, de fato, um Estado Democrático de Direito repousa quase exclusivamente sobre o pleito de 2026, quando dois terços do Senado deverão ser renovados. Será a oportunidade de os brasileiros reagirem, substituindo conivência por coragem, covardia por coerência e subserviência por patriotismo.
O futuro da democracia brasileira — e o resgate das instituições — dependerá da consciência cívica de um povo que, cansado de abusos, precisa reconduzir não apenas cargos, mas a própria soberania popular.