“Judiciário forte é um Judiciário ilegal”, diz jurista sobre frase de Moraes
Nesta terça-feira (02), Alexandre de Moraes – o xerife autoproclamado do Brasil – resolveu anunciar ao país, com uma naturalidade assustadora, que o Judiciário brasileiro é o “mais forte” do mundo. Não explicou se essa “força” vem do texto constitucional ou do poder que ele próprio concentra em suas mãos, acumulando para si funções que jamais deveriam coexistir em um Estado de Direito: juiz, promotor, investigador, vítima e até mesmo carrasco político. Tudo ao mesmo tempo.
Moraes chama isso de força; o resto do Brasil chama de abuso.
E como se não bastasse vangloriar-se de um Judiciário hipertrofiado, ignorando solenemente as amarras constitucionais que deveriam limitar o poder de qualquer magistrado, Moraes ainda defendeu salários “mais dignos” para os juízes — como se os supersalários, penduricalhos e benefícios obscuros que hoje drenam dinheiro público fossem insuficientes.
É exatamente isso que ele está dizendo ao país: o Judiciário mais caro do planeta ainda não custa o bastante.
O jurista André Marsiglia sintetizou perfeitamente o problema: “Moraes é juiz, promotor, réu e vítima.” Ele é tudo. Decide tudo. Determina tudo. E, por isso mesmo, acredita que o Judiciário brasileiro é tão forte.
Só esquece de admitir que força sem limites não é Justiça — é ilegalidade institucionalizada, é um poder que se desprendeu da Constituição e passou a agir por vontade própria.
Enquanto Moraes defende privilégios, o Brasil gastou em 2024 R$ 146 bilhões com o Poder Judiciário — 1,61% do PIB, mais de quatro vezes a média internacional.
É o Judiciário mais caro, mais lento, mais burocrático e, contraditoriamente, o que mais reclama.
Desse rombo, 83% é salário e benefícios. A conta não fecha para o cidadão comum, mas fecha muito bem para quem vive em um universo onde auxílio-moradia, auxílio-livro, auxílio-creche e penduricalhos acumulados passam de R$ 100 mil por mês.
Não existe país sério que sustente esse nível de luxo estatal — mas Moraes quer mais.
O vereador Guilherme Kilter foi direto ao ponto: “Quer melhorar o país? Reduza o custo do Judiciário, pare de alimentar supersalários e invista em segurança pública, presídios e melhores condições para os policiais.”
É o óbvio ululante: enquanto magistrados vivem como nobres medievais, brasileiros morrem nas ruas pela falta do básico.
O que Moraes não diz — e talvez nunca admita — é que o Judiciário que ele tanto enaltece não é forte porque é eficiente; é forte porque ganhou poder demais, poder sem freios, poder sem limites, poder sem contrapesos.
E quando quem deveria ser guardião da Constituição passa a agir acima dela, o país inteiro fica refém de um único homem.
Um Judiciário forte é desejável.
Um Judiciário onipotente, caríssimo e imune a críticas é um risco enorme para qualquer democracia.
E é exatamente isso que Alexandre de Moraes celebra.