Uma planilha apreendida pela Polícia Federal lança nova luz sobre as relações, no mínimo constrangedoras, entre integrantes do Supremo Tribunal Federal e empresários ligados ao Banco Master — instituição atualmente no centro de graves investigações.
O documento indica que os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, acompanhados da advogada Viviane Barci, esposa de Moraes, ocuparam a chamada mesa “2 Banco Master” em um jantar de gala promovido durante a Lide Brazil Conference, em Nova York, nos Estados Unidos.
O evento ocorreu em novembro de 2022, no restaurante Fasano New York, na região da Quinta Avenida, e foi patrocinado justamente pelo controlador do Banco Master. O estabelecimento, que sequer costuma abrir nas noites de domingo, foi especialmente aberto para receber o seleto encontro de autoridades, empresários e lobistas.
Na planilha de organização das mesas aparecem, lado a lado, os nomes de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Viviane Barci. Também estava na mesma mesa o empresário Nelson Tanure, apontado pela Polícia Federal como sócio oculto do Banco Master e descrito nas investigações como alguém que exerceria influência por meio de complexas estruturas societárias e fundos.
O episódio ganha contornos ainda mais delicados diante do fato de que os personagens presentes nessa mesa estão diretamente ligados ao atual escândalo envolvendo a instituição financeira.
Dias Toffoli, por exemplo, vendeu sua participação no Resort Tayayá, no Paraná, para um fundo pertencente ao cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Já o escritório de advocacia de Viviane Barci firmou um contrato de impressionantes R$ 129 milhões para atuar na defesa do banco.
Ou seja, enquanto o país assiste a investigações que apontam para possíveis irregularidades envolvendo o Banco Master, surgem registros que mostram ministros da mais alta Corte do país dividindo mesa patrocinada pela própria instituição investigada.
Como se não bastasse, o evento reuniu uma verdadeira constelação de figuras do poder. Em outra mesa patrocinada pelo banco, identificada como “1 Banco Master”, estavam o ex-presidente Michel Temer, sua esposa Marcela Temer, o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, o então governador de São Paulo João Doria, o ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto e o próprio Daniel Vorcaro.
Vale lembrar que, já à época do jantar, Vorcaro não era exatamente um empresário desconhecido das autoridades: ele já havia sido investigado por suspeitas de fraude em fundos de pensão de servidores públicos e chegou a ser alvo de ordem de prisão em 2019.
Outros convidados também marcaram presença no encontro, embora em mesas não patrocinadas pela instituição financeira. Entre eles estavam os ministros do STF Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, os ministros aposentados Ricardo Lewandowski e Luís Roberto Barroso, além do ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy e do ex-presidente do Bradesco Luiz Carlos Trabuco.
O episódio reforça uma discussão cada vez mais presente no debate público: até que ponto é aceitável que magistrados da mais alta Corte do país frequentem eventos patrocinados por grupos empresariais que, posteriormente, acabam no centro de investigações que podem chegar justamente ao Judiciário.
Quando ministros que deveriam simbolizar a imparcialidade da Justiça aparecem em mesas patrocinadas por instituições investigadas, o problema deixa de ser apenas jurídico — e passa a ser, sobretudo, moral e institucional.