A cegueira seletiva da Polícia Federal no caso Master

Por Fábio Roberto de Souza

Por

A postura adotada por setores da Polícia Federal no escândalo envolvendo o Banco Master começa a levantar uma pergunta inevitável e incômoda: trata-se de incompetência investigativa ou de medo diante de um poder que parece intocável?

Mesmo diante de uma sequência de fatos que, em qualquer investigação minimamente séria, justificariam ao menos uma apuração preliminar, a PF afirma que “não há elementos suficientes” para investigar a possível relação entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. A conclusão, por si só, soa absurda diante da avalanche de circunstâncias que cercam o caso.

Celulares apreendidos.
Mensagens citadas pela imprensa.
Relatos de contatos diretos.
E, sobretudo, um contrato milionário de cerca de R$ 132 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Ainda assim, segundo investigadores, tudo não passaria de “conjectura”.

A pergunta que surge é simples: em que universo jurídico um contrato dessa magnitude envolvendo a esposa de um ministro do Supremo, celebrado com o mesmo banqueiro investigado por um esquema bilionário, não desperta sequer a curiosidade institucional de quem deveria investigar?

A resposta parece estar no comportamento adotado pela própria Polícia Federal. Em vez de concentrar esforços em esclarecer a relação entre Vorcaro e Moraes, a prioridade da corporação passou a ser investigar quem vazou as informações à imprensa. Ou seja, não o possível problema — mas quem ousou revelar o problema.

Trata-se de uma inversão clássica que costuma aparecer em ambientes onde o poder se torna mais relevante que a verdade.

O contraste com o tratamento dado ao ministro Dias Toffoli também chama atenção. No caso dele, a PF produziu relatório detalhado, apontando movimentações e vínculos com Vorcaro, posteriormente encaminhado ao presidente do Supremo, Edson Fachin. Já quando o nome é Alexandre de Moraes, os investigadores subitamente descobrem a prudência, a cautela extrema e a falta de “elementos”.

É uma seletividade difícil de explicar.

A realidade é que os fatos públicos já conhecidos ultrapassam, e muito, o campo da mera especulação. O próprio Vorcaro teria buscado contato com Moraes no momento em que sua prisão se aproximava. Paralelamente, o banco mantinha um contrato milionário com o escritório da esposa do ministro — contrato cuja utilidade prática permanece envolta em silêncio.

Em qualquer país onde instituições funcionam de forma independente, isso seria suficiente para abrir uma investigação formal.

No Brasil de hoje, aparentemente, não.

A justificativa apresentada nos bastidores da corporação beira o constrangimento institucional: para examinar eventuais conversas envolvendo um ministro do Supremo seria necessária autorização da própria Corte. Traduzindo para o português claro: investigar quem ocupa o topo do poder depende da autorização de quem está no topo do poder.

Não é investigação. É tutela.

Diante desse cenário, duas hipóteses passam a circular inevitavelmente entre analistas e observadores do caso.

A primeira é a mais grave para uma instituição como a Polícia Federal: a hipótese de que investigadores estejam simplesmente fingindo não enxergar aquilo que qualquer cidadão comum já percebe.

A segunda é ainda mais preocupante: a de que exista um ambiente de intimidação institucional tão profundo que ninguém esteja disposto a tocar em determinados nomes.

Seja qual for a resposta, o resultado é devastador para a credibilidade das instituições.

Quando uma investigação ignora contratos de centenas de milhões de reais ligados ao núcleo familiar de uma das figuras mais poderosas do país, enquanto persegue vazamentos e tenta silenciar quem revela informações, a impressão que fica é a de que o problema já não é apenas o Banco Master.

O problema é o sistema que parece ter sido construído para garantir que certas perguntas jamais sejam feitas.

E, pior ainda, para garantir que certas pessoas jamais sejam investigadas.

_____________________
Fábio Roberto de Souza é jornalista – 6867/SC, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo.
instagram: @fabiorobertodesouzas


Notícias Relacionadas »