O carcereiro de Bolsonaro e a domiciliar trans

Por Fábio Roberto de Souza

Por

Por muito menos, em qualquer democracia minimamente estável, já teríamos um debate institucional sério sobre abuso de poder.

No Brasil de hoje, no entanto, assiste-se quase com naturalidade a um fenômeno perigoso: decisões judiciais que deixam de dialogar com o ordenamento jurídico para se aproximar, cada vez mais, de conveniências políticas.

A mais recente decisão do ministro Alexandre de Moraes, ao conceder uma espécie de “prisão domiciliar humanitária com prazo de validade”, é mais um capítulo dessa escalada.

Não se trata aqui de discutir a situação pessoal de Jair Bolsonaro. Trata-se de algo muito mais grave: a criação, por decisão individual, de um modelo que simplesmente não encontra previsão clara na legislação brasileira.

Desde quando prisão humanitária tem prazo pré-fixado como se fosse um “teste”? Desde quando se estabelece uma espécie de regime provisório, com revisão programada, como se o Direito fosse um laboratório de experiências?

A resposta é desconfortável, mas evidente: quando a regra deixa de ser a lei e passa a ser a vontade de quem decide.

O problema não está apenas na decisão — está no padrão.

Nos últimos anos, consolidou-se uma sequência de atos que, para muitos juristas e observadores, ultrapassa os limites da interpretação jurídica razoável e passa a ocupar um terreno cinzento, onde Direito e política se misturam de forma cada vez menos disfarçada.

E aqui entra o ponto central: o timing.

Estamos diante de um país que já começa a se movimentar para as eleições de 2026. Cada decisão envolvendo uma das principais lideranças políticas do país não é neutra. Nunca foi. E fingir que é apenas técnica jurídica é, no mínimo, subestimar a inteligência da sociedade.

Quando medidas excepcionais passam a surgir com formatos inéditos, sem base normativa consolidada e com impacto direto no cenário político, o alerta institucional deveria soar — alto.

O que se vê, porém, é o oposto: normaliza-se o excepcional.

Transforma-se o improviso em jurisprudência.

E, pior, cria-se um ambiente em que o cidadão comum passa a ter a sensação de que o Direito não é mais um conjunto de regras estáveis, mas sim um instrumento maleável, ajustado conforme o alvo.

Isso é corrosivo. Profundamente corrosivo.

Porque a credibilidade do sistema de Justiça não se sustenta apenas na autoridade — ela depende, sobretudo, da previsibilidade, da coerência e da confiança pública.

Sem isso, o que resta é a dúvida.

E quando a dúvida se instala de forma generalizada, o risco não é apenas jurídico — é institucional.

O Brasil já viveu momentos em que o excesso de poder, vindo de qualquer esfera, cobrou um preço alto da democracia.

A história ensina — e insiste em ensinar — que não existem atalhos seguros quando se decide relativizar regras em nome de circunstâncias.

A pergunta que fica, cada vez mais difícil de ignorar, é simples e direta: até que ponto ainda estamos falando de Justiça — e a partir de quando passamos a falar de poder?

_____________________
Fábio Roberto de Souza é jornalista – 6867/SC, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo.
instagram: @fabiorobertodesouzas