Master: BRB gastou R$ 500 milhões ao comprar 2 vezes mesma carteira sem garantia
O Banco de Brasília (BRB) comprou do Banco Master, por duas vezes, uma mesma Cédula de Crédito Bancário (CCB) sem garantias suficientes, em uma operação fortemente desaconselhada pela área técnica do banco estatal e concluída antes mesmo da emissão de um parecer jurídico que recomendava precauções adicionais.
As informações constam em documentos obtidos com exclusividade pelo portal Metrópoles, publicados em uma série de reportagens que apontam indícios de que ativos adquiridos do Master pelo BRB seriam inconsistentes ou sem lastro adequado, contribuindo para um rombo ainda não dimensionado nas contas da instituição pública.
Um dos casos mais emblemáticos envolve a carteira da RKO Alimentos, frigorífico sediado no Mato Grosso, que teria contratado, em dezembro de 2023, um empréstimo de R$ 400 milhões junto ao Banco Master, com período de carência até fevereiro de 2026. O BRB adquiriu essa mesma dívida em duas operações distintas, desembolsando, ao todo, cerca de R$ 498 milhões.
Primeira compra teve garantia imobiliária inexistenteA primeira aquisição ocorreu em 17 de outubro de 2024, quando o BRB comprou parte da CCB por R$ 174 milhões. Essa transação, inclusive, não consta na planilha oficial com o histórico de compras de ativos do Master pelo banco estatal, documento posteriormente revelado em reportagens investigativas.
Como as garantias originalmente apresentadas pelo frigorífico não atingiam o padrão mínimo exigido — equivalente a 130% do valor cedido — o banco estabeleceu como condição a inclusão de uma nova garantia imobiliária: um imóvel urbano avaliado em R$ 1,3 bilhão, localizado em Mata de São João (BA), município conhecido por abrigar grandes empreendimentos turísticos e resorts.
Entretanto, ao investigar a matrícula do imóvel, verificou-se que o bem jamais pertenceu ao Banco Master, o que significa que não poderia, em nenhuma hipótese, ter sido oferecido como garantia real. Tampouco há qualquer registro de alienação fiduciária vinculada a essa operação, evidenciando a fragilidade — ou inexistência — do lastro apresentado.
Segunda compra foi aprovada com 18 alertas de riscoA segunda aquisição ocorreu em 30 de junho de 2025, quando o BRB comprou novamente a mesma CCB, desta vez por R$ 324 milhões. A decisão foi tomada de forma acelerada, mesmo após o próprio banco identificar que outras carteiras de crédito adquiridas do Master apresentavam indícios de fraude.
Naquele momento, o BRB precisava demonstrar ao Banco Central capacidade de substituir ativos problemáticos por operações consideradas de melhor qualidade, em meio ao processo de aprovação para a aquisição do próprio Banco Master. Diante das opções apresentadas, a instituição voltou a escolher a mesma CCB da RKO Alimentos.
O crédito havia sido concedido na modalidade capital de giro, supostamente destinado à construção ou aquisição de novos frigoríficos e à expansão de lojas no segmento de carnes premium e congeladas.
Segundo os contratos, 90% dos recursos do empréstimo — cerca de R$ 400 milhões — permaneceriam aplicados em um fundo de investimento administrado pela Reag, sendo liberados gradualmente conforme o avanço dos projetos. Inicialmente, o fundo indicado era o Bravo. No entanto, quando a operação foi reapresentada ao BRB, o dinheiro havia sido transferido para outro fundo, denominado Titânia, sem qualquer aditivo contratual formalizando essa mudança.
Para a área técnica do banco, essa alteração sem documentação adequada configurava uma das principais fragilidades da operação. Outro ponto crítico era a ausência de monitoramento sobre a aplicação dos recursos.
Em parecer interno, os técnicos alertaram:
“A falta de acompanhamento de uma operação com saldo devedor superior a R$ 550 milhões representa fragilidade relevante na gestão do risco de crédito.”
Relatório apontou falhas estruturais e ausência de garantiasUm relatório assinado por cinco superintendências do BRB listou 18 pontos de risco associados à operação. Entre os principais problemas identificados, destacam-se:
- ausência de garantia imobiliária real na operação;
- inexistência de informações sobre liberações de recursos e cumprimento das etapas contratuais;
- falta de comprovação da utilização dos recursos nos projetos informados;
- baixo índice de cobertura de garantias, estimado em apenas 69%;
- ausência de demonstrações contábeis e financeiras atualizadas da empresa tomadora do crédito.
Apesar do elevado número de inconsistências, a operação foi aprovada sem condicionantes formais. O parecer jurídico, que posteriormente recomendaria oito salvaguardas institucionais — incluindo cláusula de revenda dos ativos — só foi emitido no dia 11 de julho de 2025, ou seja, após a concretização da compra.
Na prática, o negócio foi autorizado e executado antes da análise jurídica definitiva, contrariando procedimentos básicos de governança e gestão de risco.
Decisão foi tomada mesmo com manifestação técnica contráriaA aprovação da segunda compra ocorreu ainda na tarde do próprio 30 de junho de 2025, no mesmo dia em que as áreas técnicas do banco haviam formalizado pareceres apontando riscos relevantes e recomendando cautela.
O episódio expõe falhas graves nos mecanismos internos de controle e levanta questionamentos sobre a condução das decisões estratégicas da instituição, especialmente em operações envolvendo valores expressivos e ativos de alto risco.