Entre a força econômica e o silêncio político: O desafio de representatividade no Vale do Itajaí Mirim e Tijucas rumo a 2026
Por Fábio Roberto de Souza
À medida que o Brasil se aproxima de mais um ciclo eleitoral decisivo, uma realidade silenciosa — porém profundamente impactante — se impõe no coração de Santa Catarina: um dos polos economicamente mais ativos do estado segue há anos sem representação política direta proporcional à sua relevância.
O conjunto formado por Brusque, Guabiruba, Botuverá, Nova Trento, São João Batista, Gaspar e Ilhota reúne mais de 300 mil habitantes, com um eleitorado aproximado a 220 mil pessoas.
Trata-se de uma região que cresce acima da média estadual — mas que, paradoxalmente, não ocupa espaço equivalente nas instâncias de decisão política.
Um polo econômico que sustenta cadeias inteirasSanta Catarina é hoje um dos estados mais industrializados do Brasil, com forte presença nos setores têxtil, metal-mecânico, agroindustrial e logístico. Dentro desse cenário, o eixo Brusque–Vale do Itajaí Mirim e Tijucas tem papel estratégico.
A região concentra:
- produção têxtil de alto volume e capilaridade (Brusque e Guabiruba)
- um dos maiores polos calçadistas do país (São João Batista)
- integração logística com o corredores das BR-101 e BR-470 e acesso aos portos de Itajaí e Navegantes, além de aeroportos
- conexão econômica direta com polos como Blumenau e Joinville
Esse conjunto movimenta entre R$ 30 bilhões e R$ 50 bilhões por ano, representando algo próximo de 8% do PIB estadual — um índice extremamente elevado para um grupo de cidades médias e pequenas.
Além disso, há um fator estrutural relevante: A economia local é baseada majoritariamente em pequenas e médias empresas, o que amplia a geração de empregos, a distribuição de renda e a resiliência econômica.
A equação tributária: muito se arrecada, pouco retornaA carga tributária brasileira gira em torno de 33% do PIB. Aplicando essa lógica à região:
- entre R$ 10 bilhões e R$ 18 bilhões são arrecadados anualmente em tributos
- grande parte desses recursos segue para Estado e União
O retorno ocorre via:
- FPM (Fundo de Participação dos Municípios)
- cota-parte do ICMS
- transferências obrigatórias
- convênios e emendas
Mas os números mostram uma distorção: Apenas entre 15% e 25% retorna de forma direta ou perceptível aos municípios.
Isso significa que:
- a maior parte da riqueza gerada sai da região
- o retorno não acompanha o ritmo de crescimento econômico e populacional
Em regiões com forte articulação política, esse retorno pode ultrapassar 30%. Aqui, permanece próximo do piso.
Um dos maiores vetores de crescimento demográfico do estadoSanta Catarina é um dos estados que mais cresce no Brasil — e essa região está entre os principais vetores desse crescimento.
Os fatores são claros:
- geração de empregos industriais
- custo de vida ainda competitivo
- localização estratégica
- qualidade de vida relativa
- segurança pública
Isso tem atraído:
- trabalhadores de outras regiões do Brasil
- migrantes de estados do Sul, Sudeste e Nordeste
- imigrantes da América Latina (especialmente venezuelanos, haitianos e argentinos)
O crescimento populacional real da região, em muitos casos, supera os dados oficiais anuais.
Infraestrutura pressionada e serviços no limiteO impacto desse crescimento é direto:
- aumento da demanda por leitos hospitalares
- pressão sobre a segurança pública
- necessidade urgente de ampliação viária (especialmente corredores como a BR-470)
- expansão desordenada de áreas urbanas
- déficit em creches e escolas
Prefeituras enfrentam um cenário crítico:
- aumento contínuo de despesas obrigatórias
- limitação de receitas próprias
- dependência crescente de transferências
O modelo atual não fecha.
Representação política: o elo ausenteEm um sistema federativo como o brasileiro, representação política define prioridade orçamentária.
Sem representantes diretos:
- a região perde força em Brasília
- perde protagonismo na Assembleia Legislativa
- tem menor acesso a emendas parlamentares
- fica fora de decisões estratégicas de infraestrutura
Isso se traduz em algo concreto:
- obras estruturantes atrasam ou não saem
- investimentos migram para regiões com maior pressão política
- gargalos históricos se perpetuam
Há um ponto que precisa ser tratado com maturidade social: Essa discussão não é apenas política — é estrutural.
Ela precisa estar:
- nas conversas das famílias
- nos ambientes empresariais
- nas escolas
- nas comunidades
Porque impacta diretamente:
- o atendimento na saúde
- a segurança
- o futuro dos filhos
- a qualidade de vida
O futuro do Brasil já se mostra desafiador por fatores econômicos, fiscais e institucionais.
Sem correção dessa distorção regional, o impacto local pode ser ainda mais severo — e potencialmente traumático.
2026: uma encruzilhada históricaO ano de 2026 não será apenas mais uma eleição.
Será um teste de maturidade regional.
A região já provou que sabe:
- trabalhar
- produzir
- crescer
- gerar riqueza
Agora precisa provar que sabe:
- se organizar politicamente
- defender seus interesses
- buscar proporcionalidade no retorno dos recursos
O eixo de Brusque e seu entorno é um dos motores silenciosos de Santa Catarina. Produz, arrecada, emprega, cresce. Mas não decide.
E essa é a distorção central.
A pergunta que se impõe não é apenas política, mas estratégica: Até quando uma região que sustenta parte relevante da economia catarinense continuará sem a representação necessária para garantir seu próprio futuro?
A resposta começa agora — e passa, inevitavelmente, pela consciência coletiva de que desenvolvimento sem representação tem limite.
E esse limite pode estar mais próximo do que muitos imaginam.
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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas