ARTIGO — ENTRE A FÉ E A COERÊNCIA: O DISCURSO DE ANDRÉ MENDONÇA APÓS A DERROTA DE JORGE MESSIAS
Por Fábio Roberto de Souza
A manifestação do ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, após a rejeição do nome de Jorge Messias pelo Senado, expõe mais do que solidariedade pessoal — revela uma contradição que merece reflexão pública.
Ao lamentar a decisão do Senado e enaltecer Messias como “homem de caráter” e “apto constitucionalmente”, Mendonça adota um discurso que parece oscilar entre o papel institucional que ocupa e vínculos de natureza pessoal, ideológica ou religiosa.
E é justamente aí que surge a pergunta inevitável: de que lado está o ministro?
Não se trata de questionar a liberdade de opinião — ela é legítima. Mas, quando parte de um integrante da mais alta Corte do país, essa opinião carrega peso institucional e exige coerência ainda maior.
Mendonça construiu parte significativa de sua imagem pública apoiado em valores cristãos. Nesse contexto, é impossível ignorar um dos ensinamentos mais conhecidos das Escrituras: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus 6:24).
A frase não é apenas simbólica — ela trata de coerência, de posicionamento e de alinhamento entre discurso e prática.
No caso em questão, a defesa de Messias parece se sustentar mais em afinidades e narrativas do que em um debate técnico aprofundado sobre sua atuação, seus posicionamentos públicos e o impacto de suas ideias no ordenamento jurídico.
O Brasil precisa discutir seriamente os critérios para a escolha de ministros do STF. Não basta proximidade política, identificação ideológica ou qualquer outro fator periférico. O que está em jogo é a interpretação da Constituição e o futuro institucional do país.
Ao transformar esse debate em algo emocional ou pessoal, corre-se o risco de enfraquecer ainda mais a confiança nas instituições.
A crítica aqui não é à fé — muito pelo contrário. É à utilização seletiva dela.
Porque fé, quando invocada publicamente, exige responsabilidade. Exige coerência. Exige exemplo.
Talvez este seja um bom momento para todos — especialmente aqueles que ocupam posições de poder — revisitarem não apenas discursos, mas fundamentos.
Num país onde já se questiona a interpretação da própria Constituição, é compreensível que também surjam dúvidas sobre a forma como princípios e valores vêm sendo aplicados.
E, nesse cenário, uma coisa é certa: o Brasil precisa menos de discursos de ocasião e mais de clareza de posição.
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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas