TSE atingiu um novo patamar de vergonha alheia com o Pilili

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Sincronicidade. Mal termino de assistir ao vídeo de lançamento do tal mascote “Pilili” — um espetáculo constrangedor embalado pelo já tradicional desfile de frases ocas, clichês institucionais e solenidades artificiais — e um amigo me envia mensagem dizendo que eu preciso, com ênfase no “preciso”, escrever sobre o assunto. Como o amigo, além de amigo, também é chefe — e daqueles que não fazem sugestões, mas determinações — cá estou eu, mergulhado na inglória missão de refletir sobre um boneco não-binário de R$ 6 milhões criado para “aproximar” a Justiça Eleitoral do povo brasileiro.

Seis milhões de reais.

Num país atolado em miséria, violência, corrupção, hospitais sucateados, estradas destruídas e escolas abandonadas, a elite burocrática de Brasília julgou absolutamente indispensável investir milhões em um mascote infantilizado, concebido aparentemente por alguém que misturou marketing estatal, surto criativo e uma overdose de TikTok institucional.

E o nome? Pilili.

Uma palavra que soa simultaneamente como apelido de personagem do Cebolinha, efeito colateral gastrointestinal e onomatopeia de buzina de brinquedo barato. Ninguém, em nenhum momento da cadeia decisória, parou por cinco segundos e perguntou: “isso realmente parece sério?” Talvez não. Talvez a intenção jamais tenha sido parecer sério. Talvez o objetivo seja justamente transformar o processo eleitoral brasileiro em um grande parque temático da democracia plastificada, onde qualquer questionamento técnico é tratado como heresia e qualquer crítica vira “ataque às instituições”.

A cena do lançamento já nasce candidata a patrimônio do constrangimento nacional: autoridades togadas sorrindo para um boneco colorido enquanto o país assiste, perplexo, à erosão completa da confiança pública. E ali estava Cármen Lúcia, recitando mais um daqueles intermináveis rosários de frases feitas, embaladas em solenidade vazia, como se a repetição burocrática de palavras bonitas pudesse substituir transparência, credibilidade e debate real.

O “Zé Gotinha da Democracia”, como alguns resolveram chamar, talvez seja o retrato mais perfeito do Brasil institucional de 2026: um Estado paternalista, artificialmente lúdico, que trata cidadãos adultos como crianças incapazes de formular perguntas legítimas. Ao invés de responder dúvidas sobre auditabilidade, rastreabilidade e transparência eleitoral, cria-se um mascote. Ao invés de enfrentar críticas, distribuem-se slogans, desenhos animados e campanhas emocionais embaladas por marqueteiros milionários.

Tudo cuidadosamente montado para transformar desconfiança pública em espetáculo infantil.

E aqui está o ponto central: milhões de brasileiros possuem dúvidas legítimas sobre o sistema eleitoral eletrônico. Isso não é “golpismo”. Isso se chama desconfiança institucional — algo absolutamente normal em qualquer democracia madura. O problema é que, no Brasil, parte da elite dirigente parece acreditar que transparência não se conquista com mecanismos verificáveis, mas com propaganda institucional, campanhas publicitárias e mascotes coloridos.

Pilili talvez não seja apenas um boneco. Talvez seja um símbolo involuntário da decadência institucional brasileira: caro, artificial, desconectado da realidade e incapaz de perceber o ridículo da própria existência.

E enquanto a população pede respostas, transparência e respeito, Brasília responde no seu dialeto tecnocrático preferido:

pilililililililililililililililililililili.