Você beijaria quem está assassinando o seu marido?

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A cena envolvendo Michelle Bolsonaro e Alexandre de Moraes no TSE não foi apenas constrangedora. Foi simbólica. Quase obscena politicamente.

Enquanto milhões de brasileiros enxergam Moraes como o principal rosto do esmagamento institucional contra Jair Bolsonaro, sua esposa surge distribuindo beijinhos protocolares, sorrisos e cordialidade ao homem que a própria direita trata diariamente como perseguidor, censor e carrasco político do ex-presidente.

E depois querem cobrar indignação popular seletiva? Querem exigir fidelidade emocional de uma base que assiste, perplexa, seus próprios líderes se acomodando alegremente ao mesmo sistema que dizem combater?

A verdade é dura: Brasília é um teatro de conveniências. Nos microfones, discursos inflamados sobre ditadura judicial, perseguição e abuso de poder. Nos bastidores, tapinhas nas costas, risadinhas, abraços e beijinhos cerimoniais entre supostos “inimigos mortais da democracia”.

Talvez Michelle tenha agido por medo. Talvez por cálculo. Talvez por puro instinto de sobrevivência política. Mas existe algo devastador na imagem de alguém tratando com afeto protocolar justamente a figura que seus apoiadores aprenderam a enxergar como responsável pela destruição política, jurídica e pessoal de seu marido.

O problema não foram os dois beijinhos. O problema foi o recado simbólico transmitido ao povo: enquanto a militância sangra emocionalmente nas redes sociais defendendo seus líderes com fanatismo quase religioso, parte da elite política parece perfeitamente confortável convivendo — e sorrindo — com aqueles que dizem representar a maior ameaça ao país.

No fim, sobra ao brasileiro comum aquela sensação amarga de sempre: talvez o ódio seja mais verdadeiro na base do que entre os próprios protagonistas do espetáculo.