De referência do jornalismo crítico à caricatura ideológica: o que aconteceu com Reinaldo Azevedo?
Por Fábio Roberto de Souza
Houve um tempo em que Reinaldo Azevedo era visto por milhões de brasileiros como uma das vozes mais contundentes do jornalismo político nacional. Ácido, técnico, feroz contra corrupção, implacável diante de abusos de poder e defensor de princípios republicanos, construiu audiência justamente porque parecia não temer governos, partidos ou estruturas de influência.
Mas o tempo passou — e, para uma enorme parcela do público que o acompanhou durante anos, sobrou uma pergunta inevitável: o que restou daquele jornalista?
A transformação editorial e ideológica de Reinaldo Azevedo talvez seja hoje um dos casos mais emblemáticos da mutação do jornalismo político brasileiro contemporâneo. O comentarista que ajudou a impulsionar debates sobre corrupção sistêmica, aparelhamento estatal e degradação institucional passou a ser percebido por antigos admiradores como alguém dedicado quase exclusivamente a atacar tudo aquilo que um dia ajudou a denunciar.
A crítica não está no fato de mudar de opinião. Mudar de entendimento faz parte da honestidade intelectual. O problema começa quando a mudança parece tão radical, seletiva e conveniente que destrói a coerência histórica da própria trajetória.
Para muitos ex-leitores, o que se vê atualmente não é evolução intelectual, mas um distanciamento completo dos princípios que deram relevância ao jornalista. O antigo crítico feroz do poder tornou-se, na visão desses críticos, um comentarista frequentemente indulgente com setores políticos e institucionais que antes combatia com veemência.
A Operação Lava Jato é talvez o maior símbolo dessa ruptura. Aquilo que durante anos foi tratado como marco histórico no combate à corrupção passou a ser constantemente atacado, relativizado ou reduzido a um quase “erro histórico”, ignorando o fato de que revelou um dos maiores esquemas de corrupção já expostos no país.
A consequência disso é devastadora para a própria credibilidade jornalística: quando o público deixa de enxergar coerência entre discurso passado e atuação presente, instala-se a sensação de oportunismo editorial.
E talvez seja justamente aí que mora a maior tragédia de certas figuras da comunicação brasileira: não perder audiência, mas perder identidade.
O jornalismo sério exige compromisso com verdade, coerência, independência e coragem diante do poder — princípios que deveriam ser imutáveis. Quando a crítica passa a parecer seletiva, quando certos abusos deixam de causar indignação e quando antigos valores são abandonados conforme a conveniência do momento político, o público inevitavelmente reage.
O problema não é um jornalista ser de direita, esquerda, liberal ou conservador. O problema começa quando ele deixa de parecer jornalista e passa a agir como militante emocional de um único campo político.
E é exatamente essa percepção que hoje acompanha o nome de Reinaldo Azevedo em amplos setores da sociedade: a de alguém que, aos olhos de antigos admiradores, trocou independência por alinhamento, contundência por seletividade e coerência por conveniência.
No fim, permanece uma reflexão amarga sobre o jornalismo brasileiro atual: reputações levam décadas para serem construídas — mas podem ser desconstruídas lentamente pela própria voz que um dia lhes deu prestígio.
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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas