Quando um jornal centenário acende o alerta grave, talvez o Brasil devesse ouvir

Por Fábio Roberto de Souza

Por

Há algo profundamente simbólico — e assustador — quando um veículo de comunicação com mais de um século de existência decide soar o alarme institucional contra os rumos do país. Não se trata de um blogueiro anônimo escondido atrás de perfis falsos. Não se trata de “milícias digitais”, expressão já banalizada pelo sistema para atacar qualquer voz divergente. Trata-se da Gazeta do Povo, um jornal com 107 anos de história, sobrevivente de guerras, ditaduras, crises econômicas, mudanças tecnológicas e perseguições políticas.

E o que esse jornal está dizendo, em essência? Que o Brasil caminha perigosamente para um modelo de controle político da informação, travestido de “defesa da democracia”.

O mais impressionante é que o atual sistema de poder sequer tenta mais esconder sua obsessão pelo controle narrativo. O discurso já não é sobre combater crimes concretos. O alvo agora é o próprio fluxo de opinião pública. A intenção parece clara: vigiar, enquadrar, limitar e punir quem desafiar a narrativa oficial construída pelo consórcio político-institucional que hoje domina Brasília.

De um lado, um governo que sonha abertamente com regulamentações cada vez mais invasivas sobre plataformas digitais. De outro, uma Suprema Corte que passou a ocupar espaços cada vez mais políticos, legislativos e até investigativos, concentrando competências incompatíveis com o equilíbrio institucional originalmente previsto pela Constituição.

O resultado é um ambiente de medo seletivo.

Jornalistas independentes são investigados. Parlamentares são silenciados. Perfis são derrubados. Opiniões passam a ser tratadas como ameaças institucionais. E tudo isso embalado pelo verniz retórico de “proteção democrática”, como se censura ganhasse legitimidade apenas porque passou a ser praticada em nome das “instituições”.

A pergunta inevitável é: desde quando democracia passou a depender de controle estatal sobre o que a população pode dizer, ler, assistir ou compartilhar?

A história mundial mostra exatamente o contrário.

Todo regime com vocação autoritária começa pelo domínio da linguagem, da comunicação e da circulação de ideias. Primeiro classificam críticas como “extremismo”. Depois transformam opositores em “inimigos da democracia”. Em seguida, criam mecanismos excepcionais para “proteger a sociedade”. Quando a população percebe, o debate público já foi domesticado.

E talvez o aspecto mais perturbador seja o silêncio cúmplice de parte da velha imprensa brasileira. Muitos veículos que antes defendiam liberdade de expressão de forma absoluta agora relativizam censura conforme a conveniência ideológica do momento. Descobriram, tardiamente, que há ditaduras “aceitáveis” quando seus adversários políticos são os censurados da vez.

Por isso o alerta vindo de um jornal centenário ganha peso histórico. Porque não parte de aventureiros políticos. Parte de quem acompanhou décadas da vida nacional e percebe, com clareza, que algo profundamente anormal está sendo normalizado no Brasil.

O país parece caminhar para um modelo onde cidadãos poderão continuar falando — desde que digam apenas aquilo que o sistema considera permitido.

E isso nunca terminou bem em lugar algum do mundo.

_____________________
Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas