90% de chance de El Niño: Especialistas temem nova temporada de eventos extremos em Santa Catarina
A confirmação de que o fenômeno climático El Niño possui agora 90% de probabilidade de se formar durante o inverno de 2026 acendeu um sinal de alerta em Santa Catarina, especialmente em regiões historicamente vulneráveis aos excessos de chuva, como o Vale do Itajaí.
A projeção foi apresentada durante o 242º Fórum Climático Catarinense, que reuniu especialistas da Defesa Civil de Santa Catarina, Epagri/Ciram, IFSC e UFSC. Segundo os meteorologistas, os oceanos seguem em aquecimento e a atmosfera já demonstra sinais claros de resposta ao fenômeno, indicando que o El Niño deverá se consolidar ao longo dos próximos meses, podendo atingir intensidade forte ou até muito forte entre a primavera e o verão de 2026/2027.
Vale do Itajaí: região que conhece os efeitos devastadores da chuvaPara os moradores do Vale do Itajaí, a notícia desperta preocupação. A região carrega uma longa história de enchentes, enxurradas e deslizamentos de terra provocados por eventos climáticos extremos.
Municípios como Blumenau, Brusque, Gaspar, Rio do Sul, Itajaí, Indaial, Timbó, Pomerode e dezenas de outras cidades já enfrentaram tragédias históricas associadas ao excesso de precipitação.
Os especialistas alertam que, embora o inverno catarinense seja tradicionalmente mais seco, a presença do El Niño tende a modificar esse padrão, aumentando a frequência de sistemas de instabilidade e elevando significativamente os volumes de chuva.
A partir de julho e agosto, quando normalmente ocorre um dos períodos menos chuvosos do ano, os acumulados poderão superar as médias históricas, criando condições favoráveis para alagamentos urbanos, transbordamento de rios, deslizamentos de encostas e interrupções em rodovias.
Histórico preocupa autoridadesO temor não é infundado.
Os episódios mais severos de enchentes registrados em Santa Catarina nas últimas décadas tiveram forte influência de eventos associados ao El Niño ou a padrões atmosféricos semelhantes.
O Vale do Itajaí possui características geográficas que amplificam os riscos. A combinação entre rios encaixados, relevo acidentado, ocupação urbana próxima aos cursos d'água e encostas vulneráveis transforma a região em uma das mais suscetíveis do país aos impactos de chuvas persistentes.
Além dos prejuízos materiais, eventos extremos costumam provocar desalojamentos, interrupção de serviços públicos, prejuízos à indústria, ao comércio e ao agronegócio.
Temperaturas acima da média também preocupamOutro efeito esperado do El Niño será o aumento gradual das temperaturas médias.
Isso não significa ausência de frio. Massas de ar polar continuarão avançando sobre o Sul do Brasil, mas os períodos de frio intenso deverão ser mais curtos e intercalados por fases de aquecimento anormal para a época.
Especialistas destacam que essa combinação de calor e umidade cria um ambiente ainda mais favorável para a formação de temporais severos, acompanhados de rajadas de vento, descargas elétricas e granizo.
Estado inicia preparação preventivaDiante da ameaça climática, o Governo de Santa Catarina já colocou em prática uma série de medidas preventivas.
Em maio foi assinado o inédito Decreto de Alerta Climático, permitindo ações antecipadas em regiões vulneráveis. Paralelamente, a Operação Primavera 2026 mobiliza os 295 municípios catarinenses para limpeza de córregos, manutenção de sistemas de drenagem, vistorias em áreas de risco, simulados de evacuação e atualização dos planos de contingência.
Também avançam as obras de desassoreamento de rios e a manutenção das barragens de contenção, estruturas fundamentais para minimizar os impactos das cheias no Vale do Itajaí.
A Defesa Civil catarinense opera atualmente uma rede com 172 estações hidrometeorológicas, quatro radares meteorológicos e monitoramento permanente realizado por equipes especializadas.
População deve permanecer atentaAs autoridades reforçam que a prevenção continua sendo a principal ferramenta para reduzir riscos.
A recomendação é que moradores de áreas sujeitas a alagamentos, enchentes e deslizamentos acompanhem diariamente os alertas oficiais, mantenham planos familiares de emergência atualizados e observem sinais de movimentação de solo, rachaduras em imóveis e alterações em encostas.
Embora ainda não seja possível determinar com precisão a intensidade dos impactos que serão registrados em cada município, os especialistas são unânimes em afirmar que Santa Catarina entra em um período de atenção crescente.
Para o Vale do Itajaí, região marcada pela memória de grandes tragédias climáticas, os próximos meses exigirão vigilância constante, preparação antecipada e resposta rápida diante dos sinais da natureza.
Afinal, quando o El Niño ganha força, a história catarinense mostra que os efeitos costumam ir muito além da previsão do tempo.