Lula fala em “enforcamento” de adversário e escancara a hipocrisia que domina o debate político brasileiro
Por Fábio Roberto de Souza
Lula voltou a protagonizar uma daquelas declarações que, se tivessem saído da boca de um adversário político, provavelmente ocupariam manchetes durante semanas, mobilizariam autoridades, provocariam notas de repúdio em série e renderiam incontáveis discursos sobre a defesa da democracia.
Durante evento em Catalão (GO), ao atacar Flávio Bolsonaro, Lula recorreu à figura histórica de Joaquim Silvério dos Reis e insinuou que traidores da pátria mereceriam destino semelhante ao de um enforcamento em praça pública. O problema é que, além da gravidade da declaração, Lula ainda errou a própria História. Joaquim Silvério dos Reis jamais foi enforcado. Quem terminou na forca foi Tiradentes.
A fala poderia ser tratada apenas como mais um destempero verbal, não fosse o fato de partir justamente de quem ocupa a Presidência da República e frequentemente se apresenta como defensor da democracia, do diálogo e da civilidade política.
Em qualquer democracia séria, espera-se que o chefe de Estado atue para reduzir tensões, não para alimentar hostilidades. Espera-se equilíbrio, não provocações que evocam execuções de adversários. Espera-se responsabilidade institucional, não retórica inflamável destinada a agradar plateias politicamente alinhadas.
O episódio revela algo ainda mais preocupante: a crescente normalização de discursos agressivos quando eles partem do campo político considerado "aceitável" por determinados setores. O que para uns seria imediatamente classificado como discurso de ódio, para outros parece ser convenientemente rebatizado como metáfora, figura de linguagem ou simples retórica política.
Flávio Bolsonaro anunciou que levará o caso ao Supremo Tribunal Federal, sustentando que a declaração pode caracterizar ameaça e incitação à violência. Caberá às instituições avaliar os aspectos jurídicos da questão. Politicamente, porém, a fala já produziu seus efeitos: reforçou a percepção de que existem pesos e medidas diferentes para personagens diferentes da política nacional.
E é justamente aqui que surge a pergunta que muitos brasileiros fazem e poucos querem responder com honestidade.
Se um filho de Jair Bolsonaro subisse a um palanque e declarasse que Lula mereceria ser enforcado por suposta traição ao país, o que aconteceria nas horas seguintes?
Quantas manchetes seriam publicadas? Quantas notas de repúdio seriam divulgadas? Quantos inquéritos seriam instaurados? Quantos comentaristas estariam exigindo punições exemplares? Quantos políticos estariam falando em atentado à democracia? Quantas entidades estariam convocando manifestações de indignação?
A resposta parece bastante óbvia.
O episódio não expõe apenas uma declaração polêmica. Expõe, sobretudo, a impressionante seletividade moral que passou a contaminar parte do debate público brasileiro, onde a gravidade de uma fala muitas vezes depende menos do que foi dito e mais de quem a disse.