Moraes, os milhões do Master e o Judiciário que desaprendeu a sentir vergonha

Por Fábio Roberto de Souza

Por

Durante anos, o brasileiro ouviu sermões sobre moralidade, ética pública, combate à corrupção, integridade institucional e respeito às instituições.

Hoje, porém, observa um espetáculo muito diferente.

Enquanto cidadãos comuns são investigados, intimados, censurados, bloqueados, perseguidos administrativamente e submetidos ao peso máximo do aparato estatal, figuras situadas no topo da pirâmide do poder parecem viver em um universo paralelo, onde contratos milionários surgem, questionamentos desaparecem e explicações nunca chegam.

O caso envolvendo a esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes e os pagamentos milionários vinculados ao Banco Master já seria suficientemente escandaloso por si só.

Mas aparentemente o enredo resolveu ultrapassar os limites da própria caricatura.

Agora surgem informações de que haveria mecanismos destinados a assegurar a continuidade dos pagamentos mesmo diante da crise que envolve a instituição financeira, permitindo que os repasses multimilionários prossigam até a quitação integral de aproximadamente R$ 130 milhões.

É o tipo de notícia que faria qualquer cidadão acreditar estar lendo uma sátira política.

Mas não.

É Brasil.

O mesmo Brasil onde aposentados contam moedas para comprar remédios.

Onde pequenos empresários quebram sufocados por impostos.

Onde trabalhadores passam metade da vida pagando tributos.

E onde o Estado repete diariamente que não há dinheiro para saúde, segurança, educação ou infraestrutura.

Curiosamente, quando o assunto envolve as proximidades da elite do poder, cifras de dezenas e centenas de milhões parecem surgir com uma facilidade impressionante.

A pergunta inevitável é simples:

Qual advogado, por mais competente que seja, consegue justificar perante a opinião pública contratos que alcançam valores dessa magnitude sem despertar questionamentos?

E mais importante:

Por que aqueles que exigem transparência absoluta de todos parecem demonstrar tamanho desconforto quando a transparência lhes é exigida?

O problema já não é apenas jurídico.

É institucional.

É moral.

É civilizacional.

O STF transformou-se, para grande parte da população, numa fortaleza cercada de privilégios, blindagens e imunidades informais.

Uma corte que exige reverência, mas demonstra crescente dificuldade em inspirar respeito espontâneo.

Porque respeito não se decreta.

Não se impõe por despacho.

Não se constrói por censura.

Respeito se conquista.

E confiança pública não nasce de discursos inflamados sobre democracia enquanto contratos milionários permanecem envoltos em névoas de conveniência.

O mais impressionante é a naturalidade com que tudo parece acontecer.

Não há indignação institucional.

Não há coletivas esclarecedoras.

Não há pressão da mesma imprensa que costuma transformar qualquer suspeita envolvendo adversários políticos em manchetes permanentes durante meses.

Há apenas silêncio.

Um silêncio ensurdecedor.

Um silêncio que grita mais alto do que qualquer nota oficial.

Se um contrato semelhante envolvesse a esposa de um político conservador, um empresário identificado com a direita ou algum desafeto do establishment, o país provavelmente estaria assistindo a transmissões ao vivo 24 horas por dia, editoriais indignados, pedidos de investigação e debates intermináveis sobre conflito de interesses.

Mas quando os protagonistas pertencem ao círculo dos poderosos que se consideram moralmente superiores ao restante da população, a indignação parece entrar em férias.

E é justamente aí que reside o maior escândalo.

Não apenas nos valores.

Não apenas nos contratos.

Mas na impressionante seletividade moral que tomou conta de parte das instituições brasileiras.

O cidadão comum olha para tudo isso e chega a uma conclusão devastadora:

Existem dois Brasis.

Um para quem vive sob o peso da lei.

Outro para quem parece viver acima de qualquer constrangimento público.

O mais grave é que essa percepção destrói a confiança no sistema de Justiça muito mais rapidamente do que qualquer discurso político poderia fazer.

Porque tribunais não sobrevivem apenas de poder.

Sobrevivem de credibilidade.

E credibilidade é como cristal:

Depois que quebra, dificilmente volta a ser o que era.

O Brasil assiste hoje a uma crise que vai muito além de contratos milionários.

É a crise de um Judiciário que parece cada vez mais convencido de que não deve satisfações a ninguém.

E quando autoridades passam a acreditar que estão acima do escrutínio público, a história ensina que o problema raramente termina bem para as instituições.

Afinal, em uma República verdadeira, não deveria existir cidadão intocável.

Muito menos autoridades intocáveis.

Porque quando a toga passa a ser vista como escudo para blindagem moral e política, ela deixa de simbolizar Justiça e passa a representar exatamente aquilo que deveria combater: o privilégio.

_____________________
Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas