Não Tem Santo: Quando ladrões tomam conta do Brasil, a confiança nas instituições, em autoridades safadas e até em metidos a santos, vai para o ralo

Editorial

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Há muito tempo o brasileiro deixou de se surpreender com operações policiais envolvendo cifras bilionárias, suspeitas de fraudes financeiras e relações nebulosas entre grandes grupos econômicos e figuras influentes da República. O que antes era exceção tornou-se rotina.

A Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal, lança novas suspeitas sobre o Banco Digimais. Segundo os investigadores, haveria manipulação de balanços, superavaliação de ativos, geração artificial de receitas e ocultação da real situação financeira da instituição. Se confirmadas pela Justiça, trata-se de um ataque direto à confiança que sustenta todo o sistema financeiro nacional.

Mas o episódio não se limita ao banco.

O caso reacendeu um debate que vem desgastando profundamente a imagem das instituições brasileiras: a necessidade de transparência absoluta quando autoridades públicas ou seus familiares mantêm relações contratuais relevantes com grupos econômicos submetidos ao escrutínio do Estado.

É fato público que o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, celebrou contrato milionário com o Banco Master, posteriormente encerrado. O contrato e os valores recebidos foram amplamente divulgados e deram origem a intenso debate sobre conflitos de interesse. O escritório afirma que os serviços prestados foram lícitos e que não atuou em processos do banco perante o STF.

Também vieram à tona questionamentos públicos envolvendo o ministro Dias Toffoli em outros episódios amplamente noticiados, alimentando uma percepção de proximidade entre altas autoridades e interesses privados. Da mesma forma, decisões e manifestações relacionadas ao Banco Master colocaram outros integrantes do Supremo Tribunal Federal sob intenso escrutínio da opinião pública.

A conclusão cabe exclusivamente às autoridades competentes e ao Poder Judiciário, com base em provas e no devido processo legal.

Mas uma democracia madura não vive apenas de decisões judiciais. Ela depende da confiança da população. E essa co

Há muito tempo o brasileiro deixou de se indignar. Escândalos bilionários tornaram-se rotina. Operações da Polícia Federal sucedem umas às outras. Bancos, empresários, políticos, líderes religiosos e até integrantes das mais altas esferas do poder passam a frequentar as manchetes por motivos que deveriam envergonhar qualquer democracia séria.

Agora, a Operação Miragem coloca no centro das atenções o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo. Segundo a Polícia Federal, a instituição é investigada por suspeitas de utilização de mecanismos destinados a inflar artificialmente ativos, fabricar receitas contábeis e ocultar sua real situação financeira. As investigações também apontam possíveis manipulações de balanços, operações financeiras consideradas irregulares e inserção de informações falsas em sistemas oficiais do Banco Central.

Edir Macedo figura entre os investigados. A Justiça autorizou a quebra de seus sigilos fiscal e bancário, além do bloqueio de bens. O banco e os demais investigados ainda poderão apresentar sua defesa, como determina o Estado de Direito.

Mas o Digimais não é um caso isolado.

O escândalo se soma ao terremoto provocado pelas investigações envolvendo o Banco Master, que passaram a alcançar banqueiros, empresários, agentes públicos e figuras de enorme influência política e institucional.

Entre os episódios de maior repercussão está o contrato milionário firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O contrato, estimado em aproximadamente R$ 129 milhões ao longo de sua vigência, provocou intenso debate público sobre transparência e potenciais conflitos de interesse. O escritório afirma que todos os serviços prestados foram lícitos e que jamais atuou em processos do banco perante o Supremo Tribunal Federal.

O caso também gerou questionamentos públicos envolvendo o ministro Dias Toffoli em desdobramentos relacionados ao Banco Master, assim como debates sobre decisões e circunstâncias envolvendo o ministro Gilmar Mendes. No campo político, as investigações também alcançaram o senador Jaques Wagner, alvo de apuração da Polícia Federal por suspeitas relacionadas ao caso, enquanto reportagens sobre os desdobramentos do Banco Master também passaram a mencionar o senador Ciro Nogueira. Todos os citados negam irregularidades ou exercem seu direito de defesa.

Não deixa de chamar a atenção que a Bahia, governada pelo PT há mais de duas décadas, continue figurando repetidamente em investigações e crises políticas de repercussão nacional. Embora cada caso tenha suas particularidades e deva ser analisado individualmente, a sucessão de episódios envolvendo agentes públicos ligados ao Estado inevitavelmente produz desgaste político e institucional.

O problema maior, entretanto, vai muito além de nomes ou partidos.

O Brasil vive uma crise profunda de confiança. A população assiste, quase diariamente, a operações policiais, bloqueios bilionários, quebras de sigilo, suspeitas de fraudes financeiras, contratos milionários, conflitos de interesse e disputas institucionais que parecem não ter fim.

Enquanto isso, o cidadão comum continua pagando uma das maiores cargas tributárias do mundo, enfrentando serviços públicos precários, insegurança jurídica e uma sensação crescente de que as instituições funcionam de forma desigual conforme o peso político, econômico ou social de quem está sendo investigado.

Nenhuma democracia sobrevive apenas de discursos sobre moralidade. Democracias sobrevivem pela confiança de que a lei será aplicada igualmente a todos. Não basta exigir rigor para adversários políticos ou para cidadãos comuns; o mesmo padrão de transparência e responsabilidade deve alcançar banqueiros, empresários, líderes religiosos, parlamentares, ministros de tribunais superiores e qualquer ocupante de cargo público.

O Brasil precisa recuperar aquilo que talvez tenha perdido de mais valioso: a certeza de que transparência não é favor, responsabilidade não é opcional e que o poder existe para servir à sociedade, nunca para blindar seus próprios integrantes.

Porque quando sucessivos escândalos passam a parecer normais, o maior risco deixa de ser apenas a corrupção. O maior risco passa a ser a sociedade perder a confiança de que as instituições são capazes de apurar os fatos com independência, imparcialidade e respeito ao Estado de Direito.

nfiança é corroída quando sucessivas reportagens, investigações, contratos milionários e potenciais conflitos de interesse passam a dominar o noticiário.

O problema central é institucional. Quando quase toda semana surge um novo escândalo envolvendo bilhões de reais, operações da Polícia Federal, quebras de sigilo, bloqueios patrimoniais ou suspeitas graves, cresce a percepção de que a proximidade entre poder político, econômico e jurídico exige mecanismos cada vez mais rigorosos de transparência e controle.

A lei deve valer igualmente para todos. Para banqueiros, empresários, líderes religiosos, parlamentares, ministros de tribunais superiores e qualquer cidadão. A credibilidade das instituições não se fortalece com blindagens, mas com investigações independentes, publicidade dos atos e responsabilização quando houver prova de irregularidades.

O Brasil precisa recuperar algo que parece estar cada vez mais escasso: a confiança de que ninguém está acima da lei e de que toda autoridade pública deve prestar contas de seus atos à sociedade.