O Roda Viva de Gilmar Mendes: quando a arrogância substitui a prestação de contas

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Poucas entrevistas simbolizam tão bem o distanciamento entre parte da elite do poder e a realidade do cidadão comum quanto a participação do ministro Gilmar Mendes no Roda Viva.

Em vez de aproveitar a oportunidade para responder objetivamente às dúvidas que hoje cercam o Supremo Tribunal Federal, o decano da Corte preferiu recorrer à ironia, ao sarcasmo, às evasivas e à velha estratégia de transferir o foco das perguntas para terceiros.

Quando questionado sobre transparência patrimonial e rendimentos obtidos por ministros do STF, sua resposta resumiu-se à afirmação de que tudo estaria declarado no Imposto de Renda. Tecnicamente, isso pode ser verdade. Politicamente, porém, a resposta parece ignorar o cerne da discussão: a sociedade cobra transparência efetiva de quem ocupa um dos cargos mais poderosos da República. Não basta afirmar que as informações existem em documentos protegidos por sigilo fiscal; espera-se disposição para prestar contas de forma clara e voluntária.

Da mesma forma, ao ser confrontado sobre conflitos de interesse e relações entre integrantes do Supremo e grandes grupos econômicos, o ministro preferiu deslocar o debate para o patrocínio de eventos da imprensa. A comparação pode servir como recurso retórico, mas não responde à pergunta original. Quem exerce a função de julgar os conflitos mais relevantes do país precisa compreender que transparência não é um favor concedido à sociedade, mas um dever inerente ao cargo.

Outro momento que chamou atenção foi a tentativa de atribuir a impopularidade do STF principalmente à cobertura crítica da imprensa. É um argumento que desconsidera um elemento essencial da democracia: a imprensa noticia fatos, decisões e controvérsias que despertam interesse público. A avaliação da população é construída por diversos fatores, entre eles as próprias decisões da Corte e a percepção de coerência, imparcialidade e respeito às garantias constitucionais.

Nos últimos meses, sucessivos episódios ampliaram o escrutínio sobre o Supremo. O contrato milionário firmado entre o Banco Master e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes gerou intenso debate público sobre transparência e potenciais conflitos de interesse. O próprio ministro Dias Toffoli acabou deixando a relatoria de um dos processos relacionados ao Banco Master após questionamentos públicos. Gilmar Mendes também passou a ser citado em debates sobre decisões envolvendo esse contexto. Nenhuma dessas circunstâncias, por si só, estabelece responsabilidade jurídica, mas todas reforçam a necessidade de máxima transparência por parte da Corte.

Também causou estranheza a forma como o ministro afirmou acompanhar determinados temas "pelos jornais", ao mesmo tempo em que se posicionou de maneira contundente sobre outros processos de enorme repercussão. Para muitos observadores, essa postura alimenta a percepção de seletividade institucional, justamente em um momento em que o STF enfrenta um dos maiores desafios de credibilidade de sua história recente.

A questão central, porém, vai muito além de uma entrevista.

O Supremo Tribunal Federal não é um órgão qualquer. Seus ministros não são escolhidos pelo voto direto da população e exercem enorme influência sobre a vida política, econômica e social do país. Exatamente por isso, espera-se deles um grau de transparência, prudência e autocontenção ainda maior do que o exigido de qualquer outro agente público.

Quando respostas objetivas são substituídas por ironias, quando críticas legítimas são atribuídas exclusivamente à imprensa e quando questionamentos públicos recebem tratamento defensivo em vez de esclarecimentos claros, quem perde não é apenas a imagem de um ministro. É a confiança da sociedade na instituição que ele representa.

A autoridade de um tribunal constitucional não nasce da força de suas decisões, mas da confiança que inspira na população. Essa confiança não se impõe; conquista-se diariamente com independência, imparcialidade, transparência e respeito ao escrutínio público.

Em uma democracia sólida, ministros do Supremo não estão acima das críticas. Ao contrário: justamente por exercerem tamanho poder, devem estar entre os primeiros a prestar contas à sociedade, com serenidade, clareza e disposição para responder às perguntas que milhões de brasileiros consideram legítimas.