PF enterra de vez a aparência de imparcialidade ao pedir novo relator para investigação de Lulinha

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A decisão da cúpula da Polícia Federal de defender que a investigação envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, seja retirada da relatoria do ministro André Mendonça dificilmente deixará de provocar desconfiança em uma parcela significativa da sociedade. Ainda que a justificativa oficial seja a inexistência de conexão entre os fatos investigados e as fraudes do INSS, o episódio inevitavelmente reforça a percepção de que, quando os inquéritos alcançam pessoas próximas ao centro do poder, os critérios adotados pelas instituições parecem mudar.

Para muitos brasileiros, não basta que as decisões sejam legais; elas também precisam transmitir imparcialidade. E é justamente essa confiança que vem sendo desgastada por sucessivos episódios envolvendo figuras politicamente influentes. O resultado é o crescimento da sensação de que há um sistema de pesos e medidas diferentes conforme o investigado.

O novo inquérito foi autorizado pelo ministro André Mendonça para apurar suspeitas de tráfico de influência e corrupção em negociações envolvendo o Ministério da Saúde e a comercialização de cannabis medicinal. Segundo as investigações, Lulinha teria sido citado em tratativas que buscavam aproximar o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", de integrantes do governo federal para viabilizar contratos.

Apesar disso, a Polícia Federal sustentou que os fatos não guardam relação direta com o esquema investigado no INSS e pediu a redistribuição do caso.

A defesa de Lulinha afirma que não existe qualquer irregularidade, classificando a nova investigação como "pesca probatória". Também sustenta que a viagem realizada a Portugal teve caráter exclusivamente técnico e não gerou qualquer negócio.

Esses argumentos serão naturalmente analisados ao longo da investigação. No entanto, o dano institucional já está posto. Em vez de fortalecer a credibilidade das instituições, decisões dessa natureza acabam fornecendo combustível para críticas de que a atuação dos órgãos de investigação carece de uniformidade quando envolve personagens politicamente relevantes.

A Polícia Federal construiu, ao longo de décadas, uma reputação de independência que sempre foi motivo de orgulho nacional. Justamente por isso, cada decisão que possa transmitir a impressão de tratamentos diferenciados cobra um preço elevado da confiança pública. Em uma democracia sólida, não basta que a Justiça seja imparcial; ela precisa parecer imparcial aos olhos da população.

Enquanto persistirem decisões capazes de alimentar dúvidas sobre a igualdade de tratamento entre investigados, continuará crescendo o ceticismo de uma parcela da sociedade em relação às instituições. E confiança institucional, uma vez perdida, é muito mais difícil de recuperar do que de destruir.


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