A movimentação que se desenha nos bastidores de Brasília não é apenas uma negociação política — é um espetáculo constrangedor de rendição moral. O que se vê é a velha política travestida de estratégia, onde princípios são leiloados em troca de conveniência, e a coerência é sacrificada no altar da sobrevivência parlamentar.
A suposta articulação para pavimentar o caminho do atual advogado-geral da União, Jorge Messias, rumo ao Supremo Tribunal Federal, com a bênção silenciosa — ou cúmplice — de setores da chamada direita, liderados por figuras como Davi Alcolumbre, não é apenas uma manobra política. É, para muitos eleitores, um tapa na cara, uma afronta direta à memória e ao sofrimento de milhares de brasileiros que acreditaram estar elegendo representantes dispostos a enfrentar o sistema — e não a se ajoelhar diante dele.
O argumento de troca por um projeto rotulado como “dosimetria” soa como cortina de fumaça, uma desculpa esfarrapada para justificar o injustificável. Um projeto descrito por críticos como confuso, oportunista e historicamente inexistente surge, convenientemente, como moeda de barganha. Não se trata de avanço institucional — trata-se de negociação de poder, pura e simples.
Mais grave ainda é o simbolismo político dessa capitulação. Muitos dos que hoje negociam nos corredores do Congresso foram eleitos surfando na onda de indignação popular que se consolidou ao redor de Jair Bolsonaro. Receberam votos de cidadãos revoltados, assustados, alguns traumatizados por prisões, investigações e processos que consideram injustos. Prometeram firmeza. Prometeram resistência. Prometeram coragem.
E agora, diante da primeira encruzilhada real de poder, o que demonstram é fraqueza estratégica, miopia política e um cinismo quase didático. Não há bravura, não há convicção — há cálculo. E, pior, um cálculo que parece ignorar completamente o sentimento de quem os colocou ali.
Enquanto isso, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva observa — e avança. Porque, na política, o vazio de coragem de um lado é sempre preenchido pela ousadia do outro.
No fim das contas, essa negociação não será lembrada como um gesto de pragmatismo. Será lembrada, por muitos eleitores, como um atestado público de fraqueza, de incoerência e de abandono de princípios. Um momento em que a direita que se dizia combativa revelou, para seus próprios apoiadores, não ter espinha dorsal — apenas interesses.
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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas