Durante a tumultuada sessão desta terça-feira (15), o ministro voltou a declarar que “até a máfia tem ética”, ao atacar André Mendonça pela forma como foram expostas mensagens relacionadas ao caso Banco Master. Gilmar acusou o colega de agir seletivamente e afirmou que “pessoas decentes não fazem isso”.
A comparação é estarrecedora. Em vez de exigir investigação rigorosa e absoluta transparência sobre as suspeitas envolvendo integrantes do Supremo, Gilmar pareceu demonstrar maior indignação com a exposição dos colegas do que com a gravidade dos fatos revelados.
A máfia, mencionada pelo próprio ministro, é conhecida justamente por seu código de silêncio, pela proteção interna e pela punição de quem rompe o pacto de lealdade. Quando um integrante da mais alta Corte do país recorre reiteradamente a essa metáfora para censurar a conduta de outro magistrado, o cidadão tem o direito de perguntar: qual “ética” está sendo defendida?
A ética republicana, que exige fiscalização e igualdade perante a lei, ou a ética corporativa, na qual os integrantes do grupo devem preservar uns aos outros?
Gilmar ainda chamou a condução do caso de “pixuleco eleitoral”, acusou Mendonça de agir politicamente e participou de sucessivos confrontos que transformaram o plenário do STF em palco de hostilidades pessoais. O espetáculo foi tão degradante que Cármen Lúcia declarou estar constrangida e pediu desculpas à população.
A fala de Gilmar não acalmou a crise. Ao contrário: escancarou a mentalidade que alimenta a desconfiança de milhões de brasileiros. Quando surgem suspeitas sobre ministros, a primeira reação deveria ser determinar uma apuração independente — jamais atacar quem permitiu que os fatos viessem à luz.
Gilmar pretendia atingir André Mendonça, mas acabou ferindo ainda mais a credibilidade do próprio Supremo. Ao invocar a “ética da máfia”, ofereceu ao país uma metáfora devastadora sobre uma Corte que, diante de suspeitas internas, aparenta preocupar-se mais com quem rompe o silêncio do que com aquilo que o silêncio pode esconder.