Por muito menos, em qualquer democracia minimamente estável, já teríamos um debate institucional sério sobre abuso de poder.
No Brasil de hoje, no entanto, assiste-se quase com naturalidade a um fenômeno perigoso: decisões judiciais que deixam de dialogar com o ordenamento jurídico para se aproximar, cada vez mais, de conveniências políticas.
A mais recente decisão do ministro Alexandre de Moraes, ao conceder uma espécie de “prisão domiciliar humanitária com prazo de validade”, é mais um capítulo dessa escalada.
Não se trata aqui de discutir a situação pessoal de Jair Bolsonaro. Trata-se de algo muito mais grave: a criação, por decisão individual, de um modelo que simplesmente não encontra previsão clara na legislação brasileira.
Desde quando prisão humanitária tem prazo pré-fixado como se fosse um “teste”? Desde quando se estabelece uma espécie de regime provisório, com revisão programada, como se o Direito fosse um laboratório de experiências?
A resposta é desconfortável, mas evidente: quando a regra deixa de ser a lei e passa a ser a vontade de quem decide.
O problema não está apenas na decisão — está no padrão.
Nos últimos anos, consolidou-se uma sequência de atos que, para muitos juristas e observadores, ultrapassa os limites da interpretação jurídica razoável e passa a ocupar um terreno cinzento, onde Direito e política se misturam de forma cada vez menos disfarçada.
E aqui entra o ponto central: o timing.
Estamos diante de um país que já começa a se movimentar para as eleições de 2026. Cada decisão envolvendo uma das principais lideranças políticas do país não é neutra. Nunca foi. E fingir que é apenas técnica jurídica é, no mínimo, subestimar a inteligência da sociedade.
Quando medidas excepcionais passam a surgir com formatos inéditos, sem base normativa consolidada e com impacto direto no cenário político, o alerta institucional deveria soar — alto.
O que se vê, porém, é o oposto: normaliza-se o excepcional.
Transforma-se o improviso em jurisprudência.
E, pior, cria-se um ambiente em que o cidadão comum passa a ter a sensação de que o Direito não é mais um conjunto de regras estáveis, mas sim um instrumento maleável, ajustado conforme o alvo.
Isso é corrosivo. Profundamente corrosivo.
Porque a credibilidade do sistema de Justiça não se sustenta apenas na autoridade — ela depende, sobretudo, da previsibilidade, da coerência e da confiança pública.
Sem isso, o que resta é a dúvida.
E quando a dúvida se instala de forma generalizada, o risco não é apenas jurídico — é institucional.
O Brasil já viveu momentos em que o excesso de poder, vindo de qualquer esfera, cobrou um preço alto da democracia.
A história ensina — e insiste em ensinar — que não existem atalhos seguros quando se decide relativizar regras em nome de circunstâncias.
A pergunta que fica, cada vez mais difícil de ignorar, é simples e direta: até que ponto ainda estamos falando de Justiça — e a partir de quando passamos a falar de poder?
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Fábio Roberto de Souza é jornalista – 6867/SC, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo.
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