Tudo em casa e no esquema:Nunes Marques estreia no comando do TSE criando cargo e nomeando namorada de Toffoli

Por Fábio Roberto de Souza

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Mal assumiu a presidência do Tribunal Superior Eleitoral e Nunes Marques já conseguiu produzir aquilo que muitos brasileiros esperavam justamente não ver: mais uma demonstração de como Brasília continua funcionando como uma gigantesca confraria de poder.

O ministro indicado por Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal, que durante anos ficou conhecido pela discrição excessiva e pelo silêncio quase permanente nos grandes debates nacionais, resolveu finalmente deixar sua marca. E não foi com uma grande reforma, uma iniciativa de transparência ou uma medida de contenção de gastos.

A estreia veio com a criação de uma nova Diretoria de Assuntos Internacionais no TSE e, coincidentemente ou não, a nomeação para o cargo da juíza Renata Gil Alcântara, companheira do ministro Dias Toffoli, que acaba de retornar como membro titular da própria Corte Eleitoral.

É difícil não enxergar o simbolismo da cena.

Nunes Marques passa anos sendo chamado de "mudinho" por adversários e críticos, acumulando uma passagem discreta pelo STF, raramente protagonizando grandes embates ou liderando discussões relevantes para a sociedade. Mas bastou assumir o comando do TSE para demonstrar uma impressionante rapidez quando o assunto é ampliar estruturas administrativas e distribuir cargos de confiança.

A pergunta inevitável é: qual era a urgência nacional para criar uma nova diretoria internacional dentro do TSE?

O desempregado precisava disso?

O contribuinte precisava disso?

O empresário sufocado por impostos precisava disso?

O eleitor que exige mais transparência no sistema eleitoral precisava disso?

Ou quem precisava era justamente a engrenagem que mantém o alto escalão do Judiciário circulando entre os mesmos nomes, os mesmos gabinetes, os mesmos relacionamentos e os mesmos grupos de influência?

A justificativa oficial fala em representação internacional, fortalecimento institucional e promoção do sistema eleitoral brasileiro no exterior. Expressões bonitas, sofisticadas e burocraticamente elegantes. O problema é que o brasileiro já aprendeu a desconfiar quando escuta esse tipo de discurso acompanhado da criação de novos cargos.

Porque quase sempre a estrutura nasce primeiro. A necessidade aparece depois.

E o cenário fica ainda mais constrangedor quando se observa que a escolhida para a função mantém relação direta com um dos ministros mais influentes do Supremo e do próprio TSE.

Não se trata aqui de questionar o currículo de Renata Gil. Sua trajetória é pública e conhecida. O ponto é outro.

Em qualquer democracia séria, autoridades deveriam evitar situações que, mesmo legais, criem a aparência de favorecimento.

Mas essa preocupação parece cada vez mais distante da realidade dos tribunais superiores brasileiros.

O resultado é devastador para a credibilidade institucional.

Enquanto milhões de brasileiros disputam empregos, enfrentam concursos públicos concorridos ou precisam provar mérito diariamente para manter suas posições, os círculos do poder continuam funcionando sob uma lógica diferente, onde os sobrenomes, os relacionamentos e as conexões frequentemente aparecem próximos demais das oportunidades mais desejadas.

Nunes Marques talvez tenha desejado inaugurar sua gestão com um gesto administrativo comum.

Acabou inaugurando com um símbolo.

O símbolo de uma elite institucional que parece viver em um país paralelo, onde cargos surgem com facilidade, estruturas crescem sem constrangimento e coincidências políticas acontecem com uma frequência que desafia até os mais otimistas.

Se a intenção era fortalecer a confiança do cidadão no TSE, o efeito produzido foi exatamente o contrário.

E para quem passou anos sendo acusado de falar pouco, Nunes Marques conseguiu transmitir uma mensagem bastante clara logo nos primeiros movimentos de sua gestão.

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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas

 


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