Durante décadas, cidadãos que questionaram a segurança de sistemas eleitorais eletrônicos foram tratados como ignorantes, extremistas ou inimigos da democracia. Em vez de respostas técnicas, receberam censura moral. Em vez de transparência, ouviram que deveriam simplesmente confiar nas autoridades, nos fabricantes de equipamentos e nas instituições encarregadas de fiscalizar a si próprias.
Esse tempo pode estar chegando ao fim.
Documentos de inteligência recentemente tornados públicos pelo governo de Donald Trump apontam tentativas de interferência estrangeira, coleta massiva de dados eleitorais e vulnerabilidades na infraestrutura das eleições norte-americanas. Trump afirma que informações importantes foram ocultadas das autoridades e da população. A Casa Branca sustenta que os documentos revelam interferência estrangeira e falhas graves na segurança eleitoral. Entretanto, análises independentes observam que o material divulgado ainda não comprova que votos tenham sido efetivamente modificados ou que o resultado da eleição presidencial de 2020 tenha sido alterado.
Essa distinção precisa ser respeitada. Mas ela não pode ser utilizada como desculpa para encerrar o debate.
O fato de ainda não existir prova pública de alteração do resultado não significa que as vulnerabilidades devam ser ignoradas. Tampouco significa que todos os documentos, operações e informações de inteligência já tenham sido revelados.
A pergunta que precisa ser feita é: por que qualquer democracia adotaria um sistema cuja integridade não possa ser conferida diretamente pelo eleitor e recontada de maneira totalmente independente?
Segurança não é ausência de denúncia
Defensores da votação exclusivamente eletrônica frequentemente repetem que não há prova de fraude. Porém, a falta de prova pública não transforma automaticamente um sistema em infalível.
Segurança eleitoral não se mede apenas pela ausência de condenações ou pela palavra das instituições responsáveis. Mede-se pela capacidade de detectar uma irregularidade, preservar evidências, reconstruir cada etapa da votação e conferir fisicamente o resultado sem depender do mesmo programa que realizou o registro eletrônico.
Os próprios órgãos norte-americanos de segurança já reconheceram vulnerabilidades em determinados equipamentos eleitorais. Em 2022, a agência federal de segurança cibernética dos Estados Unidos, a CISA, publicou um alerta sobre vulnerabilidades em versões de equipamentos da Dominion, embora tenha declarado não possuir evidências de exploração dessas falhas em eleições.
Isso demonstra uma realidade elementar: sistemas eleitorais eletrônicos são produzidos por seres humanos, utilizam programas escritos por seres humanos e podem conter falhas.
Questionar isso não é atacar a democracia. É defendê-la.
China, Venezuela e as informações ainda ocultas
Os documentos divulgados por Trump mencionam a obtenção, por agentes ligados à China, de uma enorme quantidade de dados de eleitores norte-americanos. Parte desses dados poderia ter origem em registros públicos, e até agora não foi apresentada prova pública de que tenham sido utilizados para alterar votos. Ainda assim, a dimensão da coleta e o interesse estrangeiro pela infraestrutura eleitoral exigem investigação completa, independente e sem interferência política.
Também foram divulgadas referências a informações da inteligência norte-americana sobre a Venezuela. Segundo reportagens que examinaram o material, documentos indicariam que o regime de Nicolás Maduro teria demonstrado intenção e capacidade para interferir em sistemas de votação, embora a CIA não tenha conseguido confirmar que os planos tenham sido efetivamente executados.
Na eleição venezuelana de 2024, o governo proclamou a vitória de Maduro sem divulgar os resultados detalhados por máquina. A oposição, por sua vez, reuniu cópias de atas correspondentes à maioria das seções eleitorais, posteriormente consideradas legítimas por especialistas do Centro Carter. Esse episódio mostra precisamente por que registros verificáveis e preservados fora do controle central são indispensáveis.
Há ainda alegações de que Maduro, antigos integrantes de seu governo e pessoas ligadas a regimes autoritários poderiam possuir informações sobre métodos de controle, interferência ou manipulação de processos políticos na América Latina. Até que documentos, depoimentos autenticados ou provas técnicas sejam apresentados, isso deve ser tratado como alegação, e não como conclusão.
Mas exigir a abertura desses arquivos é perfeitamente legítimo.
Caso Donald Trump, a CIA ou qualquer outra instituição detenha depoimentos de integrantes de governos autoritários, documentos técnicos, comunicações internas, códigos, contratos ou relatórios sobre operações eleitorais, esse material precisa ser divulgado e submetido à análise de especialistas independentes.
Não basta anunciar que existem provas. É necessário apresentá-las.
A América Latina precisa conhecer a verdade
A América Latina atravessou décadas de golpes, ditaduras, operações clandestinas, espionagem, censura e interferências externas. Seria ingenuidade imaginar que os processos eleitorais da região jamais foram alvo de interesses internacionais, grupos econômicos, governos estrangeiros ou organizações políticas.
Nenhuma democracia deveria pedir que o cidadão confiasse cegamente em técnicos, ministros, juízes, militares, partidos, empresas privadas ou agências de inteligência. Todos devem ser fiscalizados.
A confiança legítima nasce da possibilidade de conferir.
Voto eletrônico não pode significar voto invisível
O ponto central não é ser contra a tecnologia. Sistemas eletrônicos podem acelerar a votação, reduzir erros humanos e facilitar a apuração.
O problema surge quando a tecnologia elimina ou enfraquece a possibilidade de verificação independente.
Um sistema verdadeiramente democrático deve produzir uma evidência física conferível pelo eleitor, preservada de forma segura e utilizada em auditorias e recontagens. Essa evidência não pode servir apenas como decoração ou depender de autorização extraordinária para ser examinada.
Também são indispensáveis:
Auditabilidade não significa apenas permitir que especialistas convidados examinem partes previamente selecionadas do sistema. Significa possibilitar que o resultado final seja confirmado por uma fonte independente do software responsável pela votação.
Quem confia no sistema não deveria temer uma auditoria
É difícil compreender a resistência de determinados setores políticos, jurídicos e acadêmicos à ampliação da auditabilidade eleitoral.
Quem afirma que o sistema é seguro deveria ser o primeiro a defender verificações mais rigorosas.
Quem diz que o resultado corresponde à vontade popular deveria apoiar mecanismos capazes de demonstrá-lo materialmente.
Quem considera a democracia um valor inegociável não deveria tratar perguntas como crimes.
A reação agressiva contra qualquer questionamento produz o efeito oposto ao desejado: aumenta a desconfiança. Quando instituições respondem a dúvidas técnicas apenas com autoridade, punições ou campanhas de desqualificação, parte da população conclui que existe algo a esconder — ainda que isso não seja verdade.
Transparência não enfraquece instituições. Transparência protege instituições honestas.
O mundo precisa de respostas
Os documentos divulgados nos Estados Unidos não encerram a discussão. Eles a reabrem.
Até agora, não comprovam que a China tenha alterado votos nem que a eleição norte-americana de 2020 tenha sido tecnicamente manipulada. A avaliação oficial da inteligência americana publicada em 2021 concluiu que nenhum agente estrangeiro tentou alterar aspectos técnicos do processo de votação, como registro de eleitores, votação, contagem ou divulgação dos resultados.
Ao mesmo tempo, documentos recentes levantam dúvidas sobre coleta de dados, ameaças estrangeiras, vulnerabilidades e informações que teriam sido descartadas ou minimizadas por autoridades.
Tudo isso precisa ser examinado sem fanatismo, sem censura e sem proteção corporativa.
Se Trump possui provas adicionais, que as apresente.
Se a CIA possui arquivos sobre operações eleitorais na Venezuela e em outros países latino-americanos, que sejam desclassificados dentro dos limites necessários à proteção de fontes.
Se Maduro ou antigos integrantes de seu regime prestaram depoimentos, que seu conteúdo seja verificado e, quando possível, tornado público.
Se empresas forneceram tecnologia ou conhecimento utilizado para manipular eleições, seus contratos, códigos e comunicações precisam ser investigados.
E, caso nada disso comprove adulteração de votos, essa conclusão também deverá ser apresentada com transparência.
O cidadão não pode ser obrigado a escolher entre acreditar cegamente em Donald Trump ou acreditar cegamente nas autoridades eleitorais. A democracia não pode depender da palavra de um líder, de um tribunal ou de uma agência.
Ela precisa depender de provas.
Democracia auditável já
A grande discussão não deve ser se determinada eleição foi ou não fraudada antes que as evidências sejam conhecidas. A discussão deve ser por que ainda existem sistemas eleitorais que não oferecem ao cidadão a possibilidade plena, simples e independente de conferir o próprio voto e o resultado coletivo.
Nenhum sistema é tão seguro que não possa ser aperfeiçoado.
Nenhuma instituição é tão legítima que esteja acima da fiscalização.
Nenhuma tecnologia é tão perfeita que dispense auditoria.
E nenhuma democracia é suficientemente forte para sobreviver por muito tempo exigindo fé cega de sua população.
O que aconteceu nos Estados Unidos, na Venezuela e em outros países da América Latina precisa ser esclarecido com documentos, perícias, depoimentos e provas técnicas — não com slogans de um lado nem com censura do outro.
A verdade pode confirmar suspeitas ou desmenti-las.
Mas somente a verdade, completamente exposta e auditável, será capaz de restaurar a confiança.
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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas