“Fábio e eu somos uma coisa só”, diz lobista em mensagem

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As mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular da lobista Roberta Luchsinger lançam uma sombra ainda mais pesada sobre as relações mantidas por Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, com pessoas interessadas em negócios dentro da administração federal.

O conteúdo descrito pela investigação não apresenta apenas contatos ocasionais ou relações de amizade. Segundo a PF, há indícios de um “núcleo de atuação permanente e coordenada”, formado por Roberta, Lulinha e Fernando Bittar, destinado à interlocução de interesses privados perante órgãos públicos.

Uma das mensagens atribuídas à lobista é particularmente reveladora:

“Fefe, Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, tds vão. A gente é mesmo irmão.”

“Fefê” seria Fernando Bittar, antigo sócio de Lulinha e um dos proprietários formais do sítio de Atibaia.

A frase ganha dimensão ainda maior quando confrontada com outra conversa recuperada pelos investigadores. Roberta afirma que, após a eleição de Lula em 2022, teria recebido do próprio presidente a possibilidade de escolher onde gostaria de atuar:

“Fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar.”

Segundo ela, a resposta teria sido permanecer justamente em sua sociedade com Fábio e Fernando. E acrescentou uma declaração que inevitavelmente desperta questionamentos sobre o alcance de suas relações dentro da máquina pública:

“Tô em cargo nenhum e ando onde eu quero.”

O FILHO QUE “SÓ ENTRA EM CAMPO QUANDO PRECISA”

Outra mensagem atribuída a Roberta é ainda mais sensível:

“Fábio não faz nada. Ele só entra em campo qdo precisa. Tem q se preservar.”

A declaração, se interpretada no contexto apontado pela investigação, coloca no centro da apuração uma pergunta incontornável: para quê, exatamente, Lulinha precisaria “entrar em campo”? E por que seria necessário “se preservar”?

É precisamente isso que cabe à investigação esclarecer.

Lulinha é investigado com Roberta em três inquéritos, envolvendo suspeitas de tráfico de influência, corrupção e lavagem de dinheiro. Entre os episódios investigados está a tentativa de viabilizar medicamentos à base de canabidiol no SUS, negócio que, segundo a apuração, poderia superar R$ 1 bilhão no Ministério da Saúde.

Em janeiro de 2025, Roberta teria escrito:

“Ontem eu disse para Fábio: Antonio tá pressionando e acho bom vc se mexer.”

O “Antonio” mencionado seria Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, personagem central das investigações da Operação Sem Desconto.

Mais uma vez aparece a ideia de que Fábio deveria “se mexer” quando determinado interesse empresarial necessitasse avançar.

MINISTÉRIO DA SAÚDE, DATAPREV E TELEBRAS

O material investigado vai além de um único negócio.

A PF analisa a possível participação de Lulinha na abertura de caminho para uma reunião entre Roberta e Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde. Em conversa relacionada ao encontro, a lobista teria escrito:

“Precisamos 100% do Berger.”

Também aparecem referências à Dataprev. Em determinada conversa, Roberta pergunta:

“Ta indo tudo ok na Dataprev ou preciso apertar Gabas?”

A referência seria a Carlos Gabas, ex-ministro da Previdência.

Há ainda menções à Telebras e à suposta utilização do nome de Lulinha na tentativa de viabilização de contratos.

Quando Ministério da Saúde, Dataprev, Telebras e personagens ligados ao escândalo do INSS começam a aparecer dentro do mesmo universo investigativo, já não se está diante de um episódio que possa ser tratado simplesmente como uma amizade inconveniente. Existe uma sucessão de fatos que exige esclarecimento público rigoroso.

O SOBRENOME QUE ABRE PORTAS?

Durante anos, qualquer questionamento envolvendo negócios de filhos de presidentes encontrou uma resposta politicamente conveniente: filhos são adultos e respondem individualmente por seus atos.

Juridicamente, isso é correto.

Politicamente, entretanto, a questão é muito mais delicada quando a suspeita investigada é justamente tráfico de influência.

Afinal, nesse tipo de investigação, a pergunta fundamental é precisamente esta: qual influência estaria sendo comercializada ou utilizada?

As mensagens atribuídas a Roberta tornam essa questão ainda mais incômoda quando ela afirma ter trânsito livre no governo e descreve Lulinha como alguém que deveria aparecer somente quando necessário.

Isso não constitui, por si só, prova definitiva de crime. Mas está muito longe de ser irrelevante.

E LULA?

Até o momento, Lula não é investigado nesse inquérito e não foi apontado pela Polícia Federal como integrante do suposto núcleo. Essa distinção é fundamental e não pode ser apagada, mesmo numa análise extremamente crítica.

Mas também não elimina o problema político.

Se pessoas associadas ao filho do presidente realmente possuíam a capacidade de circular pela administração federal e buscar interlocução para negócios privados, o Palácio do Planalto tem o dever de explicar quais barreiras institucionais existiam para impedir que relações familiares ou pessoais fossem transformadas em moeda de acesso ao Estado.

Lula declarou que, se seu filho praticou alguma irregularidade, deverá responder por seus próprios atos.

É o mínimo.

O que a sociedade precisa saber agora é se havia apenas um filho de presidente realizando atividades empresariais privadas ou se, como suspeitam os investigadores, existia uma estrutura organizada de interlocução que transformava proximidade política e acesso ao poder em instrumento para defender interesses empresariais dentro da administração pública.

NÃO BASTA DIZER QUE É “PERSEGUIÇÃO”

A defesa de Lulinha nega sua participação em negócios envolvendo a administração pública e sustenta que ele sofre em razão do peso de seu sobrenome. Roberta Luchsinger também permanece sob investigação, e as responsabilidades individuais ainda precisarão ser demonstradas mediante provas e observância do devido processo legal.

Mas há uma ironia impossível de ignorar: se o sobrenome Lula realmente não oferecia qualquer vantagem, por que aparecem mensagens falando em Fábio “entrar em campo” justamente quando seria necessário?

Por que alguém que dizia manter sociedade com o filho do presidente afirmava que podia andar “onde eu quero”?

Que portas eram essas?

Quem as abria?

E, principalmente: a serviço de quais interesses?

A Polícia Federal agora tem a obrigação de seguir o dinheiro, reconstruir reuniões, identificar contatos, confrontar mensagens com atos administrativos e determinar se as conversas permaneceram no terreno da bravata de uma lobista ou se produziram efeitos concretos dentro do Estado.

Porque, se as suspeitas forem comprovadas, não estaremos falando simplesmente de relações inconvenientes.

Estaremos falando de algo muito mais grave: a eventual utilização da proximidade com o núcleo familiar do presidente da República como instrumento de influência sobre a máquina pública brasileira.

E isso, independentemente de quem esteja no Palácio do Planalto, não pode ser normalizado, relativizado nem varrido para debaixo do tapete.