Justiça manda soltar segundo suspeito de esquema para envio de 400 kg de cocaína à Europa

Quando a sensação é de que o crime compensa

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Há muito tempo o brasileiro de bem convive com uma amarga sensação de inversão de valores. Trabalha, paga impostos, cumpre a lei e vive atrás de grades, enquanto criminosos, muitas vezes presos em operações de grande repercussão, conseguem recuperar a liberdade em pouco tempo.

A notícia da soltura de mais um suspeito investigado por tentar enviar cerca de 400 quilos de cocaína para a Europa reforça essa percepção que revolta milhões de brasileiros. Para quem acompanha esse tipo de caso, fica a impressão de que o risco de cometer crimes graves é cada vez menor diante da facilidade com que investigados deixam a prisão.

O problema não é apenas um caso isolado. A repetição de decisões que colocam em liberdade acusados de crimes de elevada gravidade acaba transmitindo uma mensagem extremamente preocupante para a sociedade: a de que a resposta do Estado à criminalidade é fraca e incapaz de intimidar organizações criminosas.

Não se trata de defender o desrespeito às garantias constitucionais ou ao devido processo legal. Todo cidadão tem direito à ampla defesa e à presunção de inocência. Mas também é legítimo questionar se o sistema de Justiça está conseguindo proteger a sociedade com a mesma intensidade com que protege os direitos dos investigados.

O resultado é um sentimento crescente de impunidade. Enquanto traficantes internacionais, assaltantes, homicidas e integrantes de organizações criminosas frequentemente conseguem responder aos processos em liberdade, o cidadão honesto continua pagando a conta da violência, vivendo cercado por muros, câmeras e medo.

É difícil convencer a população de que o Brasil está vencendo a guerra contra o crime quando operações que apreendem centenas de quilos de drogas terminam, pouco tempo depois, com suspeitos novamente nas ruas. A confiança nas instituições depende não apenas da observância da lei, mas também da percepção de que ela é aplicada de forma eficaz para proteger a coletividade.

Quando decisões desse tipo se tornam frequentes, cresce entre os brasileiros a sensação de que a criminalidade encontra cada vez menos obstáculos, enquanto quem cumpre a lei permanece refém da insegurança. Essa percepção, justa ou não, corrói a confiança no sistema e alimenta a ideia de que, no Brasil, a impunidade deixou de ser exceção para se tornar parte da rotina.


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