TRÁFEGO DE INFLUÊNCIA: Lulinha tinha participação ativa em esquema de tráfico de influência, aponta PF

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Muda o mandato. Mudam alguns personagens. Mudam os nomes das operações. Mas o roteiro político parece assustadoramente familiar.

Outra vez, o Brasil assiste a suspeitas envolvendo negócios privados, influência política, trânsito dentro do governo e personagens perigosamente próximos ao Palácio do Planalto.

E desta vez o sobrenome que aparece nos documentos da Polícia Federal dispensa apresentações: Lula da Silva.

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, aparece em relatório policial como suposto “beneficiário indireto” de articulações realizadas pela lobista Roberta Luchsinger junto a empresários interessados em negócios relacionados ao governo federal.

É investigação. Não é condenação.

Mas politicamente é explosivo.

Porque, depois de tudo o que o Brasil já viu envolvendo governos do PT, seria de imaginar que Lula tivesse aprendido pelo menos uma lição elementar: Palácio do Planalto, parentes, lobistas e interesses empresariais jamais deveriam aparecer misturados na mesma história.

Pois aparecem.

“Tem que se preservar”: preservar de quê?

Uma das mensagens reveladas talvez seja a síntese mais incômoda de todo o caso.

Ao falar sobre Lulinha, Roberta teria escrito:

“Fábio não faz nada. Ele só entra em campo quando precisa. Tem que se preservar.”

A frase é devastadora politicamente.

Se Lulinha nada fazia, por que precisava “entrar em campo”?

Se sua participação era absolutamente normal, por que precisava “se preservar”?

Preservar de quem?

Preservar de quê?

E, principalmente: qual era exatamente a utilidade do filho do presidente da República nas articulações de empresários interessados em abrir portas dentro do governo comandado por seu próprio pai?

A Polícia Federal terá de responder.

Mas o brasileiro tem todo o direito de perguntar.

O sobrenome presidencial como ativo político?

Segundo o relatório atribuído à PF, Lulinha aparece nas mensagens como referência decisória em projetos discutidos e como beneficiário indireto das articulações conduzidas por terceiros.

Em português claro: investigadores procuram saber se a proximidade com o filho do homem mais poderoso do país poderia representar um atalho para chegar a lugares onde empresários comuns provavelmente encontrariam portas fechadas.

É exatamente aí que o caso se torna corrosivo para Lula.

Não estamos falando de um desconhecido tentando marcar reunião em Brasília.

Estamos falando do filho do presidente aparecendo em conversas de pessoas que discutiam interesses privados perante órgãos do governo de seu pai.

Pode não haver crime.

Mas politicamente é difícil imaginar combinação mais tóxica.

“Eu trabalho a política via Palácio”

Outra mensagem atribuída a Roberta é ainda mais constrangedora:

“Eu trabalho a política via Palácio. Eu sou boa de costura política.”

Palácio.

A palavra merece atenção.

Não estamos falando de uma associação comercial, de um escritório privado ou de uma reunião entre empresários.

Estamos falando de uma lobista descrevendo sua capacidade de articulação política justamente a partir do centro do poder federal.

Em outro momento, ela teria resumido sua proximidade com Lulinha de maneira ainda mais explícita:

“Eu sou o Fábio.”

Convenhamos: para qualquer governo preocupado em manter distância cristalina entre interesses privados e poder público, frases assim deveriam provocar mais do que desconforto.

Deveriam provocar explicações imediatas.

Canabidiol, Ministério da Saúde e portas que parecem se abrir

Uma das frentes investigadas envolve tentativa de viabilizar negócios relacionados a produtos à base de canabidiol perante o Ministério da Saúde.

As mensagens revelam articulações para reuniões e contatos políticos.

Em determinado momento, Roberta informa a Lulinha que iria encontrar uma autoridade da Saúde.

A resposta atribuída ao filho de Lula:

“Que ótimo. Vai com tudo.”

Tudo pode ter sido absolutamente legal.

E é indispensável registrar que não há demonstração, nas informações apresentadas, de que essa articulação tenha resultado em contrato ou pagamento pelo Ministério da Saúde.

Mas o problema político permanece gigantesco.

Por que o filho do presidente participava de conversas envolvendo pessoas interessadas em negócios perante o governo comandado por seu pai?

Essa pergunta não desaparece simplesmente porque determinado contrato não foi concretizado.

Até a Telebras aparece

Como se Ministério da Saúde e Palácio já não fossem suficientes, as mensagens também alcançam a Telebras.

Segundo o material divulgado, Roberta teria alertado Lulinha sobre uma pessoa que estaria utilizando seu nome e sua suposta influência para negociar oportunidades junto à estatal.

Lulinha teria determinado que fosse desmentida qualquer autorização para uso de seu nome.

É um elemento favorável à sua versão e deve ser registrado.

Mas existe uma ironia difícil de ignorar:

por que o nome do filho do presidente era considerado comercialmente útil em conversas envolvendo uma empresa estatal?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes de toda a história.

O PT e a maldição do “outra vez”

O problema do PT não é apenas o presente.

É o passado que insiste em sentar à mesa toda vez que surge um novo escândalo.

Mensalão.

Petrolão.

Dirigentes partidários condenados.

Operadores.

Empreiteiras.

Dinheiro público.

Influência política.

E agora, novamente, o país lê reportagens sobre Polícia Federal, lobistas, empresários, filho de presidente e articulações dentro do governo.

Isso não significa que os episódios sejam juridicamente equivalentes.

Não são.

Mas politicamente existe um desgaste inevitável.

Depois de tudo o que aconteceu durante os governos petistas, seria razoável imaginar que o retorno de Lula ao Planalto viesse acompanhado de verdadeira obsessão por impedir qualquer sombra de promiscuidade entre relações pessoais e interesses privados.

Em vez disso, o brasileiro novamente precisa decifrar mensagens de celular para entender quem conhecia quem, quem falava com quem, quem conseguia reunião com quem e por que o filho do presidente aparecia no meio disso tudo.

É impressionante.

O PT passou décadas reclamando da associação de sua imagem à corrupção.

Talvez fosse útil começar evitando produzir situações que tornam essa associação politicamente tão fácil.

Lula pode não estar sendo acusado. Politicamente, porém, o problema bate à porta do Planalto

É necessário estabelecer uma diferença fundamental.

As informações apresentadas não permitem afirmar que Lula tenha participado das articulações investigadas.

Mas imaginar que um caso envolvendo seu filho, pessoas próximas e contatos dentro de seu próprio governo seja politicamente irrelevante para o presidente seria absurdo.

Lula é o chefe do Executivo.

É seu governo.

São órgãos de sua administração.

E é seu filho que aparece nas mensagens investigadas.

O mínimo que se espera do presidente é absoluta transparência e nenhuma interferência nas apurações.

Nenhuma.

Presunção de inocência não significa silêncio da imprensa

A defesa de Lulinha afirma que ele é investigado há anos sem que tenham encontrado algo que o desabone e critica vazamentos relacionados às investigações.

É um contraponto necessário.

Lulinha não pode ser tratado como condenado sem sentença.

Mas existe uma confusão conveniente que precisa ser rejeitada: presunção de inocência não significa presunção de irrelevância jornalística.

A imprensa não precisa esperar uma sentença transitada em julgado para perguntar por que pessoas próximas ao filho do presidente discutiam negócios, influência e acesso a integrantes do governo.

Investigar poder não é condenar antecipadamente.

É justamente fazer jornalismo.

E lá vamos nós outra vez

Talvez seja essa a frase mais incômoda para Lula e para o PT:

e lá vamos nós outra vez.

Outra vez documentos policiais.

Outra vez relações nebulosas entre política e negócios.

Outra vez personagens próximos ao poder.

Outra vez explicações.

Outra vez o discurso de perseguição.

Outra vez o país tentando descobrir onde termina a amizade, onde começa o lobby e em que ponto entra a influência política.

O Brasil já assistiu a capítulos demais desse gênero.

Agora, quando documentos da Polícia Federal colocam o próprio filho de Lula dentro de uma investigação envolvendo possíveis articulações de interesses privados perante o governo federal, tratar tudo como simples coincidência política seria exigir ingenuidade demais da população.

Ninguém deve condenar Lulinha antecipadamente.

Mas ninguém é obrigado a fechar os olhos.

A investigação precisa chegar até o fim.

Sem proteção de sobrenome.

Sem blindagem política.

Sem narrativa partidária.

Sem carteirada.

Se tudo foi legal, que os fatos demonstrem.

Se alguém utilizou proximidade com o presidente, parentesco, influência política ou acesso privilegiado para transformar Brasília em atalho para negócios privados, que responda por isso.

Porque a República não pertence ao PT.

O governo não pertence a Lula.

E o Palácio do Planalto definitivamente não pode funcionar como extensão da agenda comercial de parentes, amigos ou lobistas.

Depois de tantos escândalos que marcaram os governos petistas, talvez a pergunta mais devastadora já não seja “o que aconteceu?”

É outra: por que, quando Lula e o PT estão no poder, o Brasil parece condenado a fazer essa pergunta de novo?


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