Há mais de duas décadas, o nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, aparece ciclicamente nas páginas políticas e policiais do país. Desde que Luiz Inácio Lula da Silva chegou à Presidência da República pela primeira vez, em 2003, a ascensão patrimonial e empresarial de seu filho passou a ser alvo de questionamentos públicos, reportagens, investigações e intensos debates políticos.
Agora, o roteiro se repete. A Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal a abertura de um terceiro inquérito consecutivo para apurar suspeitas de tráfico de influência envolvendo empresas ligadas ao empresário. Segundo as informações divulgadas, a investigação busca esclarecer se houve favorecimento de empresas parceiras na obtenção de contratos com órgãos da administração pública.
O foco desta nova apuração envolve uma empresa de tecnologia associada a Lulinha que mantém contratos milionários com o governo federal. Dados públicos apontam contratos superiores a R$ 55 milhões, dos quais cerca de R$ 49 milhões já teriam sido pagos pelos cofres públicos.
Dias antes, o ministro André Mendonça autorizou a abertura de outros dois inquéritos para investigar suspeitas semelhantes envolvendo contratos relacionados ao Ministério da Saúde e à Dataprev. As investigações estão em andamento e ainda não há conclusão judicial sobre os fatos.
A defesa de Lulinha reagiu classificando a sequência de investigações como uma "piada" e um "melhor de três", negando qualquer prática ilícita e sustentando que seu cliente não cometeu irregularidades.
Independentemente do desfecho jurídico, o caso reforça uma velha questão que acompanha a política brasileira: quando familiares do chefe do Executivo mantêm relações empresariais com estruturas que contratam com o poder público, o dever de transparência precisa ser proporcional ao tamanho da influência política envolvida. Quanto maior o poder, maior deve ser o escrutínio.
O governo Lula enfrenta, mais uma vez, o desgaste provocado por investigações que atingem seu núcleo familiar. Embora inquérito não represente condenação, também não pode ser tratado como um fato irrelevante. A abertura sucessiva de três investigações pela Polícia Federal evidencia que existem elementos considerados suficientes para justificar a continuidade das apurações.
Em uma democracia, cabe à Justiça investigar com independência, ao Ministério Público fiscalizar e à sociedade acompanhar com espírito crítico. Se as suspeitas forem infundadas, que sejam definitivamente arquivadas. Se houver ilícitos, que sejam responsabilizados todos os envolvidos, independentemente do sobrenome ou do cargo ocupado por seus familiares.
O país não pode conviver com dois pesos e duas medidas. O combate à corrupção perde legitimidade quando depende da conveniência política de quem está no poder. Transparência, igualdade perante a lei e respeito ao devido processo legal não são favores do Estado; são exigências da República.