O quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva começará com uma dificuldade que nenhuma estratégia de comunicação poderá apagar: o presidente receberá o país que ele próprio está governando. O responsável pela administração anterior estará na cerimônia de posse, assumindo novamente o cargo. Ele próprio.
Em 2027, atribuir os problemas nacionais exclusivamente a uma suposta “herança maldita” dos adversários será uma tentativa de fugir da própria responsabilidade. As escolhas orçamentárias, as prioridades administrativas, as promessas e os compromissos do governo que termina, acompanharão Luiz Inácio no mandato seguinte.
Lula herdará Lula. E terá de responder por essa herança.
Desde janeiro de 2003, o PT ocupou a Presidência nos dois primeiros mandatos de Lula, durante o governo Dilma Rousseff até seu afastamento em maio de 2016 e, novamente, a partir de 2023. Ao final de 2026, serão aproximadamente 17 anos e quatro meses de exercício efetivo da Presidência dentro de um período de 24 anos. É tempo suficiente para tornar insustentável a postura de quem reivindica todos os acertos, mas procura outros responsáveis por cada fracasso.
Também é necessário reconhecer o que existia antes da chegada do partido ao Planalto. Lula recebeu de Fernando Henrique Cardoso um país com o Plano Real consolidado, instituições econômicas estruturadas e instrumentos de responsabilidade fiscal.
A história econômica brasileira não começou com uma posse presidencial. Um governante sério reconhece o que recebeu, preserva o que funciona e assume os resultados de suas decisões.
Agora, a questão é ainda mais direta. O governo que começará em 2027 não poderá apresentar como surpresa o desequilíbrio que já conhece em 2026.
O Prisma Fiscal de outubro, divulgado pelo Ministério da Fazenda, registrou uma mediana de projeções de mercado de R$ 53,048 bilhões para o déficit primário do Governo Central em 2026. Trata-se de uma estimativa, ainda sujeita ao fechamento do exercício, e que não inclui os juros da dívida. No mesmo levantamento, a projeção mediana para a dívida bruta era de 83,4% do PIB em 2026 e 87% em 2027.
Esses números exigem explicações que deveriam ter acompanhado cada promessa de campanha: quanto custa, de onde vem o dinheiro e qual despesa será reduzida para abrir espaço à nova obrigação?
Segundo reportagem da Agência Brasil sobre o relatório de outubro da Instituição Fiscal Independente, medidas anunciadas durante a campanha podem representar impacto fiscal de R$ 40 bilhões sem previsão nos orçamentos considerados. A estimativa não contempla outras propostas, como o Pé-de-Meia para o ensino superior e a gratuidade do transporte coletivo nos fins de semana. É impacto potencial de medidas, não comprovação de dinheiro já gasto em campanha. Lula gastou aproximdos R$ 400 bilhões para manter-se no poder.
A distinção não diminui a gravidade do problema. Ao contrário: revela o tamanho da responsabilidade de quem amplia compromissos antes de demonstrar como pretende financiá-los.
Prometer benefícios é politicamente confortável. Apresentar a conta exige coragem. Se ela vier por aumento de tributos - provável, a população pagará. Se vier por endividamento adicional - também provável, haverá consequências para os orçamentos futuros. Se vier por cortes em outras áreas, alguém perderá serviços ou investimentos - já estão sendo aunciados cortes ou seja, estelionato eleitoral.
Como Lula pretende cumprir promessas ou conciliá-las com as restrições que seu próprio regime já enfrenta?
Soma-se a tudo isso, o fato de que as Eleições de 2026 estão sob fortíssimas suspeitas. Corre nas rodas de conversas e no sentimento do Povo em todo País, que o Judiciário tenha produzido o resultado eleitoral. Tudo por culta exclusiva do próprio Judiciário.
Outrossim, o brasileiro que votou em Lula frequenta o mesmo supermercado daquele que votou contra ele. Ambos pagam aluguel, energia, transporte e medicamentos. Ambos percebem quando precisam substituir produtos, adiar compras ou escolher qual conta ficará para depois.
É nessa experiência cotidiana que a propaganda encontra seu limite.
Mesmo quando a inflação desacelera, os preços não retornam automaticamente aos patamares anteriores. Se a renda não acompanha o custo da vida, a melhora anunciada pode continuar distante da mesa de uma família. O cidadão não precisa dominar conceitos econômicos para perceber que seu orçamento perdeu capacidade de escolha.
Isso vale também para quem depende de transferência de renda. Receber um benefício não transforma ninguém em propriedade eleitoral de um partido. A assistência é financiada pela sociedade e deve proteger pessoas, ampliar oportunidades e reduzir vulnerabilidades. Tratá-la como obrigação de gratidão política é desrespeitar o cidadão que precisa dela.
O eleitor beneficiário tem o mesmo direito de cobrar, protestar e mudar de opinião que qualquer outro brasileiro.
Por isso, Lula corre um risco que parece frequentemente subestimado por governos reeleitos: confundir a vitória nas urnas com a renovação automática da paciência popular.
Um quarto mandato não traz a novidade de uma primeira experiência. Há uma trajetória extensa para avaliar, promessas anteriores para comparar e resultados recentes pelos quais cobrar. Lula não poderá pedir que a sociedade esqueça os quatro anos imediatamente anteriores para lhe conceder outro período de espera.
Minha avaliação é que haverá pouco espaço para um “namoro” de início de mandato. Quanto maiores as expectativas criadas durante a campanha, mais rápida poderá ser a cobrança por entregas concretas.
Isso não torna inevitável uma explosão de revolta em 2027. Torna politicamente perigoso ignorar sua possibilidade. A frustração pode crescer quando o eleitor percebe distância entre aquilo que ouviu e aquilo que consegue viver — especialmente se a resposta do regime for procurar culpados ou tratar toda crítica com hostilidade política - como está fazendo com ajuda do Judiciário.
A oposição mais difícil de enfrentar pode surgir justamente entre aqueles que acreditaram.
Quem votou esperando comida mais acessível, renda suficiente, serviços melhores e tranquilidade para trabalhar pode reagir com especial dureza se concluir que recebeu promessas sem sustentação. Esse eleitor não precisa aderir integralmente ao campo adversário para retirar sua confiança do governo.
Basta entender que sua esperança foi utilizada e sua cobrança, desprezada.
Se Lula insistir em administrar o país como uma campanha permanente, poderá fortalecer entre seus próprios eleitores as fileiras de uma oposição democrática. A mudança virá pela perda de apoio, pela fiscalização, pela mobilização pacífica e pelo voto.
A eleição oferece um mandato. Não concede imunidade à realidade.
Em 2027, o regime petista terá de apresentar resultados, justificar escolhas e assumir os custos do que prometeu. Se falhar, encontrará dificuldade crescente para apontar o dedo para o passado.
Porque, desta vez, o passado recente terá sua assinatura, "LULA".
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Fábio Roberto de Souza é jornalista (6867/SC), atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas