PF prende banqueiro do Banco Master em dia de PL Antifacção

    18/11/2025 13h24 - Atualizado há 2 semanas

    O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do encrencado Banco Master e sócio da SAF do Atlético-MG, foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, na noite desta segunda-feira 17, poucas horas antes de a Câmara dos Deputados votar o polêmico PL Antifacção que promete ser a “resposta mais dura” contra o crime organizado.

    Segundo a PF, Vorcaro se preparava para embarcar em um jato particular rumo a Dubai, nos Emirados Árabes. A ordem de prisão partiu da Justiça Federal de Brasília no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga a emissão de títulos de crédito falsos e um rombo bilionário envolvendo o Banco Master, o Banco de Brasília (BRB) e fundos de previdência.

    Investigadores afirmam que a prisão foi antecipada diante do risco de fuga. Vorcaro teria deixado a sede do banco em São Paulo, tomado um helicóptero até o terminal de aviação executiva de Guarulhos e seguiria em avião particular para Malta ou Dubai logo após o anúncio da venda do Master ao grupo Fictor com apoio de supostos investidores árabes. A defesa nega tentativa de fuga e sustenta que o banqueiro viajava para assinar o contrato de venda.

    A Operação Compliance Zero cumpre sete mandados de prisão, entre preventivas e temporárias, e 25 de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Distrito Federal e Rondônia. Além de Vorcaro, foram presos executivos do Master, como Augusto Lima, e o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi afastado do cargo por decisão judicial. Os crimes sob investigação incluem gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa.

    O coração do esquema, segundo as apurações, foi a fabricação de carteiras de crédito sem lastro em 2024. Esses “ativos” teriam sido vendidos ao BRB e, depois, trocados por outros papéis sem avaliação técnica adequada quando o Banco Central começou a desconfiar da operação. O valor sob suspeita se aproxima de R$ 12 bilhões, em uma engenharia financeira que misturou papéis podres, promessa de rentabilidade fora da curva e o carimbo de instituições públicas.

    Na manhã de terça-feira 18, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado Master e colocou parte das empresas sob administração especial temporária. Foram atingidos o Banco Master Múltiplo, o Banco Master de Investimento, o Letsbank e a Master Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários. O banco digital Will Bank foi preservado por ter interessados na compra.

    Dados do próprio BC indicam que o grupo Master administrava mais de R$ 80 bilhões em ativos e cerca de R$ 62,2 bilhões em depósitos cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos. O Master ficou conhecido por oferecer CDBs que pagavam até 140% do CDI, bem acima da média de mercado, sempre sustentando o discurso de que tudo era seguro porque havia proteção do FGC. Na prática, operava no limite da liquidez e dependia de linhas de socorro, inclusive uma de R$ 4 bilhões do próprio Fundo Garantidor.

    Para o pequeno investidor, a liquidação aciona o “airbag” do FGC, que garante até 250 mil reais por CPF ou CNPJ em depósitos e CDBs por instituição. Quem aplicou valores acima desse limite entra na fila de credores da massa liquidanda, sem garantia de recuperar a diferença. O ressarcimento é feito mediante cadastro no aplicativo ou site do FGC, após envio da base de credores pelo liquidante indicado pelo Banco Central.

    A crise do Master também respinga em fundos de previdência públicos. O Rioprevidência, que paga aposentadorias e pensões de mais de 200 mil servidores do estado do Rio de Janeiro, investiu perto de R$ 1 bilhão em letras financeiras do banco, papéis sem cobertura do FGC. O Tribunal de Contas do Estado havia alertado, ainda em 2024, para a concentração “crítica” desses recursos em uma instituição já classificada como de risco elevado. Agora, o dinheiro de aposentados e pensionistas pode simplesmente desaparecer.

    No plano institucional, a intervenção no Master é apontada por analistas como a maior já realizada pelo Banco Central desde a criação do FGC e se soma a uma longa lista de 147 bancos alvo de medidas de resolução desde 1964. A decisão de liquidar o banco veio meses depois de o BC barrar a tentativa de compra pelo BRB, que assumiria 58% das ações e herdaria passivos ainda mal conhecidos.

    Enquanto a PF prendia Vorcaro e o BC colocava o Master no respirador, a Câmara dos Deputados se preparava para votar o PL Antifacção. O projeto, relatado pelo deputado Guilherme Derrite (PP-SP), endurece penas, cria cadastros nacionais de facções e amplia instrumentos de repressão penal. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), vende a proposta como “resposta mais dura” contra o crime organizado, embora juristas e o próprio governo Lula (PT) apontem brechas técnicas e risco de esvaziar a Polícia Federal.

    O contraste é evidente. De um lado, o Congresso discute penas mais pesadas para jovens pobres recrutados por facções nas periferias. De outro, um banqueiro bem relacionado, com participação milionária no futebol e trânsito em gabinetes de Brasília e dos Emirados Árabes, é acusado de fraudar carteiras de crédito bilionárias, vender títulos sem lastro a empresas públicas e colocar em risco a aposentadoria de servidores. É o crime organizado de colarinho branco, sofisticado e, muitas vezes, tratado com luvas de pelica.

    A prisão de Daniel Vorcaro, a liquidação do Banco Master e a votação do PL Antifacção no mesmo dia expõem a contradição central do sistema: o Estado brasileiro é duro com o varejo do crime, mas vacila diante dos barões das finanças que brincam com o dinheiro alheio. Se a Câmara quer de fato enfrentar facções, precisa olhar também para os conluios entre bancos, fundos de previdência e governos estaduais. Sem isso, o endurecimento da lei penal continuará servindo mais para encarcerar pobres do que para alcançar quem desvia bilhões com uma assinatura.


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