Em entrevista ao programa Café com a Gazeta na manhã desta quinta-feira (4), o deputado Luciano Zucco protagonizou um dos episódios mais desconcertantes da política recente. Ao comentar o fracasso da pauta da anistia, Zucco afirmou que “os deputados do PL e outros foram enganados, iludidos”, numa referência direta — e absolutamente óbvia — à eleição de Hugo Motta para a presidência da Câmara, vitória viabilizada justamente pelos votos e articulações desses mesmos parlamentares.
A fala, além de ridícula, é um escárnio com a inteligência dos brasileiros de direita. Zomba da capacidade de análise política de milhões de cidadãos que, desde o início, sabiam exatamente o que representaria a ascensão de Motta: o enterro definitivo de qualquer pauta que ousasse contrariar os interesses do sistema. Que um deputado supostamente alinhado com a direita reivindique agora a condição de vítima de “ilusão” apenas reforça a percepção de que boa parte dessa bancada não faz ideia do jogo que está jogando — ou, pior, finge que não sabe.
Desde antes da eleição na Câmara, era cristalino que a escolha de Hugo Motta seria determinante para bloquear temas sensíveis ao governo e ao establishment político. Analistas, jornalistas independentes e o próprio eleitorado de direita alertaram incessantemente para o risco. Se o povo viu, como é possível que os deputados que vivem do ofício político não tenham visto?
A resposta é simples: ou sabiam e agora se esquivam, ou realmente não entendem minimamente como o Congresso opera — e, nesse caso, estão confessando uma incapetência monumental.
Zucco, ao alegar que foi “enganado”, não se desculpa. Ele expõe, com todas as letras, que parte dos parlamentares que se autodenominam de direita não compreende os mecanismos de poder, não antecipa consequências óbvias e ainda contribui para fortalecer aqueles que pretendem neutralizar qualquer oposição real.
A fala de Zucco revela um problema maior: a direita institucional continua politicamente ingênua, fragmentada e, muitas vezes, refém de seus próprios erros estratégicos. O discurso de que foram “iludidos” reforça a imagem de uma bancada vulnerável, que age por impulso e se recusa a aprender com a dinâmica do próprio Parlamento.
Enquanto parlamentares seguem justificando decisões desastrosas com explicações infantis, o país paga o preço. Perde-se tempo, oportunidades e, sobretudo, credibilidade. O eleitor observa perplexo: aqueles que deveriam representá-lo parecem não compreender minimamente as engrenagens do poder que juraram enfrentar.
O pior, porém, é a ofensa ao cidadão que paga impostos, acompanha o noticiário e entende perfeitamente o que está em jogo. Zucco, ao se colocar como vítima, trata milhões de brasileiros como otários — como se todos estivessem sujeitos à mesma alegada “ilusão”.
Mas a verdade é que ninguém foi enganado. Exceto, talvez, quem quis ser.
Zucco, ao tentar justificar o injustificável, dá voz a um sentimento crescente entre os eleitores de direita: a profunda desconfiança na capacidade dessa bancada de atuar com estratégia, seriedade e visão de longo prazo.
A política brasileira jamais foi um ambiente para amadores. O sistema — que Zucco parece só agora descobrir — opera com precisão cirúrgica. Quem não conhece o jogo é triturado. Quem não antecipa movimentos é engolido. Quem vota errado entrega o país nas mãos de quem não tem compromisso com suas pautas.
E é exatamente isso que vem acontecendo.
Os eleitores esperam firmeza, inteligência e ação. Em vez disso, recebem justificativas vexatórias, declarações patéticas e autoproclamações de ingenuidade que não cabem em quem ocupa uma cadeira no Parlamento.