Do mundo não se leva nada.

Raul Holderf Nascimento - Conexão Política

    14/12/2025 08h01 - Atualizado há 2 meses

    “Do mundo não se leva nada. Vamos sorrir e cantar.” A frase de Silvio Santos, repetida por décadas, sintetizou uma visão popular, acessível e direta da comunicação. Uma comunicação que falava com o povo, não sobre o povo. Um comunicador número um, que entendia o Brasil real, não apenas os salões onde ele é comentado. Não à toa se tornou o rei da televisão.

    Mas nesta sexta-feira (12), a inauguração de uma nova frente jornalística de uma das maiores emissoras do país rasgou um soco na cara, um bofete entre legado e prática. Eventos institucionais, lançamentos corporativos e a presença de autoridades fazem parte do protocolo democrático e da rotina de qualquer empresa que opere sob concessão pública. Todos sabem. Isso, por si só, não é o ponto central da crítica. O problema não está na formalidade. Está na postura.

    O que se viu não foi apenas a observância de um rito institucional, mas a construção de uma cena simbólica. Um jornalismo que nasce já ambientado em cercadinhos de poder, confortável entre autoridades, distante da rua, da indignação social, da crise cotidiana que atravessa o país. A comunicação que deixa de ser ponte e passa a ser vitrine.

    A imprensa não sobrevive apenas de estrutura, investimento, publicidade ou financiamento estatal. Ela sobrevive, sobretudo, da confiança do público. Pode ter estúdios modernos, equipes numerosas e grandes nomes, mas se perde o vínculo com a sociedade, nasce fragilizada. Credibilidade não se compra. Não se decreta. Não se toma. Não se herda. Ela se constrói, lentamente, com coerência, independência e compromisso com os fatos.

    Uma mídia pode até contar com recursos abundantes. Mas, sem o aval popular, sem o reconhecimento de que cumpre sua função social, ela perde sua razão de existir. Mais vale uma redação modesta, fiel ao seu papel, do que uma grande estrutura que abandona o público em nome de alinhamentos convenientes.

    É legítimo que a população questione. Afinal, o poder emana do povo ou apenas quando convém? A liberdade de expressão é um princípio absoluto ou seletivo? A crítica é permitida ou depende do alvo? Democracia plena ou relativizada? Soberania nacional ou condicional? As perguntas não são novas. O silêncio, sim, tem sido cada vez mais uma marca do ‘novo normal’.

    O país atravessa um período de insegurança institucional, pressão econômica, perda de renda, fechamento de empresas e aumento da sensação de injustiça. A sociedade sente. O cidadão comum percebe. O brasileiro sai de casa sem saber se retorna vivo para casa. Fingir normalidade, sorrir para fotos e celebrar como se nada estivesse fora do lugar não é neutralidade. É escolha.

    As redações, cada vez mais, se afastam da função essencial de servir à sociedade. Todos querem audiência. Todos querem números. Poucos aceitam o ônus de ser imprensa de verdade. O jornalismo passou a operar, em muitos casos, como narrativa oficial de grupos específicos, em troca de prestígio, acesso e reconhecimento institucional.

    Quando se diz que o jornalismo está ameaçado, não é por intolerância do público. É porque a imprensa, em grande parte, deixou de reportar a realidade para administrar versões dela. Passou a frequentar ambientes confortáveis demais para enxergar o país como ele é. O resultado é a erosão da confiança e o distanciamento entre mídia e sociedade.

    O Conexão Política se orgulha de não ter virado as costas para seu público até hoje. São quase dez anos de trabalho, mantendo a mesma linha editorial, separando fato de opinião, notícia de análise. Aqui, há quase uma década, convergentes também são questionados, e sem medo. Porque lideranças passam. Governos passam. Mas os interesses da nação permanecem.

    O que aconteceu nesta sexta-feira, 12 de dezembro de 2025, não foi apenas um evento mal calculado. Foi um sinal. Um gesto simbólico de alinhamento que, diante do contexto nacional, soou como indiferença. Enquanto o país enfrenta dificuldades reais, parte da imprensa escolhe celebrar com quem está distante delas.

    Dias tristes para o jornalismo. Dias tristes para a imprensa brasileira. Quando a comunicação deixa de servir ao público para tietar o poder, algo fundamental se perde. E recuperar isso é sempre mais difícil do que preservar.

    Onde está o jornalismo do Brasil?


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