O chamado “PL da Dosimetria” não passa de uma encenação grotesca. Um teatro cínico montado para enganar famílias desesperadas, iludir presos injustiçados e produzir vídeos eleitorais para 2026. Nada além disso.
Quando Hugo Motta foi eleito presidente da Câmara com apoio total do Partido Liberal, a promessa era clara, objetiva e repetida à exaustão: anistia. O PL indicaria o vice, comandaria a Casa na ausência do presidente e colocaria como prioridade absoluta a libertação dos perseguidos do 8 de Janeiro. Era isso que se dizia nos bastidores, nos discursos e nas redes sociais. Houve comemoração, houve bravata, houve promessa.
O que veio depois foi um desfile de incompetência, covardia e desorganização. A oposição não apenas falhou em aprovar a anistia como conseguiu protagonizar cenas patéticas: deputados com mandatos suspensos por ocupação da Mesa, estratégias infantis, nenhum avanço concreto, nenhuma vitória real. Enquanto isso, pessoas continuaram presas, exiladas, humilhadas, adoecendo e morrendo no cárcere. A anistia nunca saiu do papel.
E então, como último ato da farsa, surge o PL da Dosimetria — e pasmem: conduzido e costurado por Alexandre de Moraes, Michel Temer, Aécio Neves e Paulinho da Força, este último um descondenado pelo próprio STF. Ou seja: o sistema legislando para salvar a própria narrativa, não as vítimas.
Chamar isso de vitória é fraude moral. Celebrar esse projeto é vergonha histórica.
O mais repugnante é assistir a parlamentares e influenciadores sem escrúpulos afirmarem que “pais e mães de família passarão o Natal em casa”. Isso é mentira. Mentira suja. Mentira canalha. Se ainda estiverem vivos — e não morrerem na prisão como Clezão — esse eventual Natal, na melhor das hipóteses, seria o de 2026 ou 2027.
A realidade, que esses mentirosos escondem deliberadamente, é simples:
Lula já anunciou que vetará o projeto.
Ele tem prazo legal que pode ir até a primeira quinzena de 2026.
Vetado, o texto volta ao Congresso, que só retoma os trabalhos no fim de fevereiro, e olhe lá.
Mesmo que o veto seja derrubado, uma canetada do STF pode simplesmente enterrar o projeto.
E, se por milagre o PL sobreviver, nada será automático: todas as condenações terão de ser revistas individualmente pelo STF, processo por processo, sentença por sentença.
Estamos falando de anos. Anos.
Na prática — e isso os políticos safados escondem — é muito mais provável que os presos alcancem progressão de regime pelas regras atuais do que sejam beneficiados por essa porcaria legislativa vendida como salvação.
Para quem está encarcerado, qualquer esperança é compreensível. Mas transformar ilusão em palanque é crime moral. O PL da Dosimetria não liberta ninguém agora. Não garante nada. Não corrige injustiça alguma no presente. Serve apenas para enganar, ganhar tempo e colher votos em outubro de 2026.
Político que hoje posa de herói com esse projeto está pensando exclusivamente na próxima eleição — não nas pessoas presas, não nas famílias destruídas, não nos exilados, não nos mortos.
Gravem os nomes. Gravem os rostos. Gravem os discursos.
E expulsem esses enganadores da vida pública brasileira. Porque quem lucra com a dor alheia não merece mandato, não merece respeito e não merece perdão.