O violador sistemático de direitos fundamentais, Alexandre de Moraes, voltou a ter seu nome associado a práticas que escancaram a promiscuidade entre poder estatal, interesses privados e relações pessoais. Reportagem do O Globo revelou que o ministro manteve ao menos quatro contatos diretos com o presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, numa tentativa explícita de interceder politicamente em favor do Banco Master.
As comunicações — três por telefone e uma presencial — teriam como objetivo pressionar a autoridade monetária para viabilizar a aprovação da venda do Banco Master ao BRB, operação anunciada em março, mas travada por graves inconsistências técnicas. O banco pertence ao empresário Daniel Vorcaro, posteriormente preso em novembro por suspeita de envolvimento em fraude bilionária.
Segundo a reportagem, Moraes atuou pessoalmente em defesa de Vorcaro, ignorando alertas técnicos do Banco Central. Galípolo teria informado ao ministro que auditorias internas identificaram fraudes da ordem de R$ 12,2 bilhões em créditos transferidos ao BRB — um rombo incompatível com qualquer aprovação regulatória minimamente responsável. Diante da gravidade dos fatos, Moraes teria recuado, reconhecendo que a operação não poderia avançar.
O desfecho foi inevitável: em 18 de novembro, a Polícia Federal prendeu Vorcaro e outros seis executivos, enquanto o Banco Central decretava a liquidação extrajudicial do Banco Master. O episódio, porém, ganha contornos ainda mais graves quando se revela o conflito de interesses familiar envolvendo o ministro.
O escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci, mantinha contrato com o Banco Master prevendo pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos, totalizando aproximadamente R$ 130 milhões. Ainda que órgãos oficiais aleguem não haver registros formais de atuação do escritório junto ao Banco Central, Cade ou Receita Federal, o simples trânsito político do ministro em defesa direta do banco cliente do escritório da própria esposa já configura um escândalo ético de grandes proporções institucionais.
Técnicos do Banco Central relataram à Polícia Federal e ao Ministério Público que jamais sofreram tamanha pressão política em favor de um único banco, o que reforça a percepção de uso do aparato estatal para proteger interesses privados bem posicionados. Em entrevista de fim de ano, Galípolo afirmou estar à disposição do Supremo para prestar esclarecimentos e reforçou que todas as movimentações da autarquia estão formalmente documentadas.
O episódio ganhou ainda um capítulo institucionalmente estranho quando, na sexta-feira (19), o ministro do Tribunal de Contas da União, Jhonatan de Jesus, determinou que o Banco Central prestasse esclarecimentos sobre a liquidação do Master até 23 de dezembro — decisão que causou perplexidade no meio jurídico, uma vez que o TCU não detém competência sobre transações entre instituições financeiras privadas.
Como se não bastasse, o caso foi centralizado no próprio Supremo Tribunal Federal, após decisão do ministro Dias Toffoli, que determinou que a investigação tramitasse sob jurisdição da Corte, com a Polícia Federal conduzindo as oitivas acompanhadas por juízes auxiliares — arranjo que levanta sérios questionamentos sobre corporativismo judicial e blindagem institucional.
O episódio expõe aquilo que há muito se denuncia: Alexandre de Moraes não atua como magistrado imparcial, mas como agente político, utilizando o peso do cargo para pressionar instituições técnicas, proteger aliados e favorecer interesses que orbitam sua própria esfera familiar, enquanto relativiza garantias constitucionais quando estas não lhe são convenientes. Trata-se de um retrato claro de um Estado capturado, no qual a lei deixa de ser limite e passa a ser instrumento de conveniência.