O caso envolvendo o contrato milionário firmado entre o escritório de advocacia do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, e o Banco Master é apenas mais um capítulo de uma longa e vergonhosa sucessão de episódios que escancaram a simbiose indecente entre o poder político, o sistema de Justiça e interesses econômicos no Brasil.
Firmado em 28 de agosto de 2023, o contrato previa o pagamento mensal de R$ 250 mil por uma suposta “consultoria jurídica e institucional de caráter estratégico”. O detalhe mais alarmante, contudo, é que os repasses continuaram por quase dois anos — inclusive durante 21 meses em que Lewandowski já ocupava um dos cargos mais sensíveis da República, à frente do Ministério da Justiça no governo Lula (PT), função assumida em janeiro de 2024.
Ao todo, o acordo rendeu cerca de R$ 6,5 milhões brutos ao escritório, sendo R$ 5,25 milhões já após a entrada formal do ex-ministro no governo federal. O contrato teria sido articulado a pedido do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), o mesmo grupo político que também indicou o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega para atuar junto à instituição financeira. Não se trata, portanto, de um fato isolado, mas de um arranjo político cuidadosamente costurado nos bastidores do poder.
Embora Lewandowski tenha formalmente se retirado da sociedade em janeiro de 2024, o escritório passou a ser comandado por seus próprios filhos, Enrique de Abreu Lewandowski e Yara de Abreu Lewandowski. Na prática, o vínculo financeiro permaneceu intacto, com os pagamentos fluindo regularmente, apesar de não haver registros de entregas relevantes ou efetivas ao banco. Segundo apuração, o ex-ministro participou de apenas duas reuniões do Comitê Estratégico durante todo o período do contrato — o que torna ainda mais questionável a justificativa para cifras tão elevadas.
Esse episódio se soma a outros que já vieram à tona e a muitos que ainda emergirão. O país assistiu recentemente ao escândalo do contrato de R$ 129 milhões envolvendo a esposa do ministro Alexandre de Moraes, assim como ao já popularmente batizado “Toffolão”, protagonizado por Dias Toffoli — casos que reforçam a percepção de que há um verdadeiro sistema de autoproteção e blindagem mútua entre integrantes do Judiciário, do Executivo e setores privilegiados da economia.
Historicamente ligado ao Partido dos Trabalhadores, Lewandowski foi indicado ao STF pelo próprio Lula em 2006. A proximidade do Banco Master com quadros do partido torna-se ainda mais escandalosa diante das recentes declarações públicas do presidente da República, que, em discurso inflamado em Maceió (AL), acusou o controlador do banco, Daniel Vorcaro, de causar um rombo bilionário no sistema financeiro.
“Falta vergonha na cara”, afirmou Lula, ao denunciar um suposto desfalque superior a R$ 40 bilhões, cujo prejuízo, segundo ele, recairia sobre bancos públicos e privados — Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Itaú. A contradição é gritante: enquanto o presidente ataca publicamente a instituição, figuras centrais de seu governo e de seu campo político mantêm ou mantiveram relações financeiras milionárias com o mesmo banco.
A repetição desses episódios deixa claro que não se trata de exceção, mas de método. Um sistema em que cargos públicos, influência política e relações econômicas se entrelaçam de forma obscura, corroendo a credibilidade das instituições e aprofundando a descrença da população. O caso Lewandowski não é o último — é apenas mais um dos muitos que ainda virão à tona, à medida que o véu da impunidade começa, ainda que lentamente, a ser rasgado.