O que se viu nesta última semana extrapola qualquer limite do razoável, do legal e do ético. Em pleno ano eleitoral, uma escola de samba — bancada com dinheiro público, inclusive verba federal — decidiu rasgar a legislação eleitoral e transformar o Carnaval em um palanque político descarado, promovendo propaganda antecipada em favor de Luiz Inácio Lula da Silva e do PT.
Sob o manto da “manifestação cultural”, foliões vestidos com camisetas estampando o rosto de Lula, fazendo o “L” de forma ostensiva e repetitiva, participaram de um ensaio que mais se assemelhou a um comício militante do que a uma celebração popular. O enredo, longe de qualquer neutralidade artística, foi construído como uma ampla e explícita homenagem ao presidente, enquanto a música entoada propagava discurso de ódio contra Jair Bolsonaro e contra milhões de brasileiros que se opõem ao projeto político do lulopetismo.
Trata-se de um ato político escancarado, financiado com recursos que deveriam servir ao interesse público e à cultura, não à militância partidária. A utilização do Carnaval — uma das maiores manifestações culturais do país — como instrumento de propaganda eleitoral é um ataque direto à democracia, à isonomia do processo eleitoral e ao direito do cidadão de não ser obrigado a financiar, com seus impostos, campanhas políticas disfarçadas de festa popular.
Mais grave ainda é a tentativa deliberada de fabricar uma falsa imagem de apoio nacional a Lula, como se uma noite de folia, cuidadosamente encenada, fosse capaz de apagar a crise institucional, o desgaste internacional, o aumento da polarização, o enfraquecimento das liberdades e os erros que hoje colocam o Brasil novamente sob desconfiança dentro e fora do país. Carnaval não reescreve a realidade. Samba não apaga fatos. Fantasia não substitui verdade.
O episódio expõe uma prática recorrente: a instrumentalização do dinheiro público, da cultura e das massas para fins eleitorais, enquanto órgãos de controle fazem vista grossa e a Justiça Eleitoral parece seletivamente silenciosa. Se isso não é propaganda antecipada, então a lei virou peça decorativa. Se isso não é abuso de recursos públicos, então o contribuinte passou oficialmente à condição de financiador compulsório de projetos ideológicos.
A pergunta que fica não é se houve ilegalidade — ela é evidente. A pergunta é: até quando esse tipo de abuso será tolerado? Até quando manifestações culturais serão sequestradas por militantes travestidos de artistas? E, principalmente, quem ainda acredita que o Brasil inteiro pode ser enganado por um desfile, enquanto o país enfrenta problemas reais que nenhuma batucada consegue esconder?
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Fábio Roberto de Souza é jornalista – 6867/SC e palestrante, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo.
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