Moraes acusa imprensa de “ajudar agressores do STF”

    04/02/2026 19h16 - Atualizado há 4 semanas

    Alexandre de Moraes voltou a fazer aquilo que se tornou sua marca registrada: atacar o mensageiro para fugir do conteúdo da mensagem. Em vez de reconhecer que sua atuação personalista, autoritária e politicamente contaminada é um dos principais fatores da corrosão da credibilidade do Supremo Tribunal Federal, o ministro preferiu culpar a imprensa — justamente a que ainda ousa investigar, apurar e noticiar as maracutagens que orbitam a cúpula do Judiciário.

    Durante o julgamento de ações que discutem regras do CNJ sobre o uso de redes sociais por magistrados, Moraes acusou “parte da mídia” de atuar em favor dos “agressores” do STF. A declaração não é apenas infeliz: é reveladora. Para o ministro, qualquer questionamento, investigação ou reportagem que exponha conflitos de interesse, privilégios indevidos ou relações promíscuas entre poder público e interesses privados passa automaticamente a ser tratada como ataque institucional.

    É o mundo invertido. O STF não é agredido pela imprensa — é protegido por ela quando os fatos vêm à tona. A agressão real ocorre quando ministros se colocam acima do escrutínio público, tratam críticas como crime moral e tentam blindar a si mesmos sob o manto da toga.

    Moraes chegou a insinuar que haveria uma campanha maliciosa ao se afirmar que o Supremo “autorizou magistrados a julgarem causas envolvendo parentes”. O problema é que ninguém sério fez essa acusação nesses termos. O que se expôs — com dados, números e processos — foi algo muito mais grave: a explosão de atuações de parentes diretos de ministros nos tribunais superiores após a ascensão desses magistrados ao poder máximo do Judiciário. Isso não é “mentira”, é estatística.

    Levantamento do UOL mostrou que familiares de ministros atuaram em 1.921 processos no STF e no STJ. Ainda que muitos já advogassem antes das nomeações, o crescimento abrupto da presença desses escritórios nas cortes superiores levanta questionamentos óbvios sobre influência, acesso privilegiado e assimetria de poder. Questionamentos que qualquer democracia madura consideraria legítimos — menos, aparentemente, Alexandre de Moraes.

    Mais grave ainda é o silêncio seletivo do ministro diante de fatos que não cabem em discursos indignados. As investigações envolvendo o Banco Master revelaram que o escritório da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, teria firmado contrato de R$ 129 milhões para representar a instituição. Não se trata de fofoca, mas de informação concreta, documentada, de interesse público. Ainda assim, Moraes prefere classificar esse tipo de apuração como “má-fé” ou “interesse econômico escuso”.

    Ao atacar a imprensa por “demonizar” palestras remuneradas e participações societárias de magistrados, Moraes novamente foge do ponto central. Ninguém critica aulas ou palestras em si. O que causa indignação é a naturalização de uma elite judicial que acumula poder, influência política, protagonismo midiático e ganhos financeiros paralelos, enquanto exige silêncio, reverência e submissão da sociedade.

    A tentativa de transformar jornalistas em vilões e ministros em vítimas é mais um capítulo da deterioração institucional promovida por quem deveria zelar pela sobriedade, pela autocontenção e pela autoridade moral do Supremo. O STF não perde credibilidade porque é investigado. Perde credibilidade porque reage às investigações com arrogância, ataques e ameaças veladas.

    Ao fim, o discurso de Alexandre de Moraes não revela preocupação com a imagem do STF, mas com a preservação de um poder que já não aceita limites, questionamentos ou transparência. Quando um ministro passa a enxergar a imprensa livre como inimiga, o problema não está na mídia — está no espelho que ele se recusa a encarar.


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