Segundo um antigo dito carioca, não existe nada mais entediante do que passar o Carnaval em Niterói. Talvez por isso, movidos por um misto de ressentimento ideológico e oportunismo político, certos setores da esquerda tenham decidido transformar a Marquês de Sapucaí em um palanque eleitoral disfarçado de festa popular — financiado, como sempre, com dinheiro público.
Não é novidade que projetos autoritários começam pela captura simbólica da cultura. Onde antes havia espontaneidade, beleza e tradição, instala-se propaganda. Onde florescia diversidade estética, impõe-se narrativa única. A história mostra esse roteiro de forma cristalina: regimes socialistas sempre substituíram arte por culto à personalidade, inteligência por doutrinação e liberdade por bajulação. Foi assim com Mao Tse-tung, com Josef Stálin — e é exatamente esse o caminho que se tenta trilhar ao erguer, em pleno Carnaval brasileiro, mais um altar político para Lula.
Sob o pretexto de enaltecer o “operário do Brasil”, o desfile não passa de propaganda antecipada, escancarada e custeada indiretamente pelo contribuinte. Cada pluma reluzente esconde uma realidade muito menos festiva: escândalos de corrupção que marcaram décadas, aparelhamento institucional, impostos sufocantes, decisões judiciais concentradas e um ambiente crescente de intimidação a quem ousa discordar do discurso oficial.
O enredo fala em amor que venceu o medo. Mas, fora da avenida, o que se vê é o medo transformado em método: bloqueios financeiros arbitrários, censura disfarçada de regulação, perseguição política travestida de defesa da democracia. Fala-se em brilho de uma estrela nacional, mas esse brilho reaparece sobretudo nos capítulos mais sombrios do Mensalão, do Petrolão e de tantas outras feridas ainda abertas na memória coletiva do país.
Quando o samba evoca liderança mundial, omite deliberadamente a proximidade com regimes autoritários, ditaduras latino-americanas, teocracias repressivas e grupos que desprezam valores democráticos elementares. A retórica humanista serve apenas como verniz para alianças que contradizem frontalmente o discurso que se tenta vender na avenida.
A apropriação de símbolos históricos de resistência — jornalistas mortos, artistas perseguidos, vozes silenciadas do passado — torna-se especialmente cínica quando usada por um campo político que hoje convive com censura, intimidação e controle narrativo. Chora-se a ditadura de ontem enquanto se normalizam práticas autoritárias no presente.
Também se romantiza a superação da fome e da pobreza, ignorando dados manipulados, responsabilidade fiscal abandonada e contradições gritantes entre discurso social e privilégios de poder. A miséria do povo vira argumento retórico; a abundância do sistema permanece intacta.
No fundo, o espetáculo não é cultural — é eleitoral. Não é celebração — é campanha. E não é espontâneo — é patrocinado, direta ou indiretamente, pelo bolso do cidadão comum.
Quando a Quarta-feira de Cinzas chegar, o samba provavelmente cairá no esquecimento, como tantas peças de propaganda travestidas de arte. O problema é que a conta não desaparece com a ressaca. Ela permanece nas mãos de quem paga impostos, sustenta o Estado e assiste, impotente, à transformação de uma das maiores festas populares do mundo em instrumento político de um projeto de poder.
O desfile poderá cantar que o amor venceu. Mas, longe dos holofotes, milhões de brasileiros sabem que o enredo real é outro — e que o medo, longe de ter acabado, nunca esteve tão presente.