Há momentos na política em que o discurso deixa de ser cálculo e passa a ser confissão. A fala de Luiz Inácio Lula da Silva, neste sábado (7), ao afirmar que “90% dos evangélicos ganham benefícios do governo”, não foi apenas um erro estatístico grotesco. Foi algo muito mais grave: a exposição crua da forma como o poder enxerga milhões de brasileiros — não como cidadãos livres, mas como dependentes úteis.
O número é absurdo. Os próprios dados oficiais o desmentem sem esforço. Mas, neste caso, a mentira aritmética é quase irrelevante diante da verdade política que ela revela. O raciocínio implícito é cristalino: quem recebe auxílio estatal estaria, de alguma forma, vinculado ao regime que distribui esse auxílio. Trata-se de uma lógica antiga, típica de projetos de poder que confundem política social com mecanismo de controle e solidariedade pública com instrumento de fidelização eleitoral.
Reduzir os evangélicos — um dos grupos sociais mais diversos, trabalhadores e autônomos do país — à condição de beneficiários dependentes não é apenas desrespeitoso. É revelador. Revela uma visão paternalista, centralizadora e perigosamente próxima da ideia de que o Estado concede dignidade, quando na verdade deveria apenas garanti-la. Revela também a dificuldade histórica do lulismo em compreender qualquer forma de organização social que não esteja sob sua órbita ideológica.
O crescimento evangélico no Brasil nunca foi obra de governo algum. Foi construído na base da família, do esforço individual, da comunidade local, da disciplina moral e da fé. Elementos que, por definição, escapam ao controle estatal. Talvez por isso incomodem tanto. Talvez por isso precisem ser reinterpretados como “dependência”, para que se encaixem numa narrativa de poder.
Há, ainda, algo mais inquietante: a naturalidade com que se fala em avançar politicamente sobre a fé alheia. Como se crença religiosa fosse território eleitoral. Como se convicções espirituais pudessem ser convertidas por estratégia partidária. Como se milhões de consciências pudessem ser tratadas como estatística de gabinete.
Esse não é apenas um equívoco político. É um sintoma. Sintoma de um projeto que enxerga vulnerabilidade social como oportunidade de domínio. Que mede cidadãos pela utilidade eleitoral. Que substitui liberdade por tutela e autonomia por gratidão forçada.
A história mostra onde esse tipo de lógica costuma terminar: em sociedades cada vez mais dependentes, menos livres e progressivamente silenciosas diante do poder. Não por convicção, mas por necessidade.
Os evangélicos brasileiros — como qualquer outro grupo — não precisam de rótulos, muito menos de tutela ideológica. Precisam apenas do que todo cidadão precisa: liberdade para crer, trabalhar, prosperar e discordar.
E talvez seja justamente essa liberdade que certas visões de poder nunca conseguiram aceitar.
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Fábio Roberto de Souza é jornalista – 6867/SC, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo.
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