Exposto e declarado mentiroso público. Dias Toffolli deixa relatoria do caso Master.
Mas, a saída de Dias Toffoli da relatoria do inquérito que envolve o Banco Master não representa, em absoluto, um gesto de transparência institucional. Ao contrário, expõe de forma ainda mais cristalina o mecanismo de autoproteção que há anos contamina as estruturas mais altas do Judiciário brasileiro.
Na noite desta quinta-feira (11), Toffoli deixou o caso sob a justificativa de garantir o “bom andamento dos processos”. A narrativa, cuidadosamente construída, veio acompanhada de uma nota coletiva dos demais ministros do Supremo Tribunal Federal — documento que, longe de esclarecer, soou como um manifesto corporativista de blindagem preventiva. Em uníssono, os integrantes da Corte descartaram qualquer hipótese de suspeição ou impedimento do colega e apressaram-se em validar todos os atos por ele praticados, mesmo diante das graves revelações oriundas da investigação da Polícia Federal.
O roteiro é conhecido: antes mesmo que a sociedade compreenda a extensão dos fatos, a cúpula do poder já se mobiliza para garantir que nada atinja o núcleo duro da instituição. A mensagem transmitida é inequívoca — entre proteger a credibilidade do sistema ou preservar seus próprios integrantes, a escolha parece sempre recair sobre a segunda opção.
A reunião de emergência convocada pelo presidente do STF, Edson Fachin, após a apresentação do relatório da Polícia Federal com dados extraídos do celular do empresário Daniel Vorcaro, reforça essa percepção. Conversas, menções a pagamentos e até convites pessoais envolvendo o então relator vieram à tona. Ainda assim, a reação institucional não foi de apuração rigorosa, mas de defesa pública antecipada.
Horas antes, Toffoli já havia admitido participação societária na empresa Maridt, ligada a empreendimento que contou com investimentos de pessoas diretamente conectadas ao investigado. Mesmo diante desse contexto, a Corte preferiu sustentar a inexistência de qualquer impedimento — uma conclusão que, para parcela crescente da opinião pública, soa menos como juízo técnico e mais como proteção corporativa.
A garantia de que todas as provas permanecerão válidas, independentemente da controvérsia sobre a atuação do relator, fecha o círculo de preservação institucional. Nada será anulado, nada será questionado com profundidade, nada ultrapassará os limites cuidadosamente definidos pelos próprios julgadores.
Resta agora a redistribuição do processo. Oficialmente, haverá um “sorteio”. Formalmente, tudo seguirá o rito. Mas, diante do histórico recente, surge a pergunta inevitável que ecoa fora dos gabinetes de mármore:
alguém realmente acredita que esse sorteio produzirá um resultado imprevisível — ou já se pode antecipar que o caso terminará nas mãos de Alexandre de Moraes ou Gilmar Mendes, como tantas vezes ocorreu quando interesses sensíveis atravessam o caminho do Supremo?
No Brasil de hoje, a dúvida já não é jurídica. É de confiança. E confiança, quando se perde, dificilmente se recupera.