A sucessão de ilegalidades e imoralidades envolvendo o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Lula não se limita aos já evidentes abusos de poder político e econômico, tampouco à caracterização de propaganda eleitoral antecipada. O episódio carrega, de forma ainda mais grave, a sombra de uma tragédia humana que permanece sem a devida resposta do Estado: a morte da menina Raquel Antunes, de apenas 11 anos, esmagada entre um carro alegórico e um poste durante o Carnaval de 2022.
À época, Wallace Palhares — atual presidente da escola e então dirigente da Liga-RJ, responsável pela organização da Série Ouro — ocupava posição direta de comando sobre a estrutura que deveria garantir segurança, controle e fiscalização na área de dispersão das escolas de samba. A própria Justiça do Rio de Janeiro, ao receber a denúncia do Ministério Público, reconheceu a existência de responsabilidade pela ausência dessas medidas básicas de proteção no local onde ocorreu o acidente fatal.
Raquel havia subido em um carro alegórico que, ao entrar em movimento, a prensou violentamente contra um poste. Socorrida em estado gravíssimo, sofreu múltiplos traumatismos, teve uma das pernas amputada e, após dias de sofrimento, morreu na UTI. Mesmo diante de tamanha dor, a família ouviu do dirigente declarações públicas de distanciamento, afirmando não ter obrigação de prestar suporte, sob o argumento de que o fato teria ocorrido fora da área de responsabilidade direta da entidade — postura que, além de juridicamente questionável, revela profunda insensibilidade humana.
Em janeiro de 2023, Palhares foi indiciado pela Polícia Civil. Em maio do mesmo ano, tornou-se réu por homicídio culposo. Ainda assim, a estratégia defensiva tem se concentrado em transferir responsabilidades à prefeitura ou a outros órgãos públicos, numa tentativa de diluir culpas que a investigação já apontou como decorrentes de negligência elementar: permitir a presença de crianças em proximidade imediata com veículos pesados, sem isolamento, escolta ou qualquer protocolo mínimo de segurança.
O processo segue em tramitação na 29ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, com novas audiências realizadas ao longo de 2025 para oitiva de testemunhas. Entretanto, para além dos ritos formais do Judiciário, permanece uma realidade incontornável: até hoje, a família de Raquel Antunes aguarda por justiça. Aguarda por responsabilização concreta, por reconhecimento institucional da falha que tirou a vida de uma criança e por uma resposta que vá além da morosidade processual.
Enquanto isso não ocorre, cada novo episódio que envolve os mesmos protagonistas reforça a sensação de impunidade — uma ferida aberta que insiste em lembrar ao país que, sem justiça verdadeira, não há memória que se pacifique nem dor que se encerre.