O CARNAVAL DA PROPAGANDA: A MANOBRA DO PT COM DINHEIRO PÚBLICO QUE TERMINOU EM VEXAME NACIONAL

Por Fábio Roberto de Souza

    19/02/2026 18h57 - Atualizado há 3 semanas

    O que deveria ser cultura popular transformou-se em palanque político. O desfile da Acadêmicos de Niterói não foi apenas uma homenagem artística — foi, na prática, uma operação de marketing eleitoral escancarada, financiada com recursos públicos e cuidadosamente construída para projetar a imagem de Luiz Inácio Lula da Silva em pleno ano eleitoral.

    A tentativa foi audaciosa. O resultado, desastroso.

    O samba-enredo trouxe jingle histórico de campanha, referências explícitas ao número 13, alas inteiras fantasiadas com a estrela vermelha do PT, figurantes representando Lula com faixa presidencial e gestos clássicos de campanha sendo reproduzidos diante de milhões de telespectadores no horário nobre da televisão brasileira. Não houve pedido explícito de voto — mas houve algo talvez ainda mais evidente: promoção política organizada, ensaiada, televisionada e impulsionada.

    E tudo isso sob o olhar complacente de quem sabia exatamente o que estava fazendo.

    O governo federal destinou R$ 1 milhão à escola via Ministério da Cultura — valor idêntico ao repassado às demais agremiações, é verdade — mas que, neste contexto, soma-se a milhões de reais oriundos de outros entes públicos. O espetáculo político foi amplificado por presença institucional: ministros de Estado, primeira-dama, presidente da Embratur, lideranças partidárias e o próprio presidente da República, que recebeu previamente dirigentes da escola no Palácio do Planalto.

    Coincidência? Ingenuidade? Ou estratégia calculada?

    A defesa de que se tratava apenas de manifestação artística não resiste a uma análise mínima dos fatos. O próprio Tribunal Superior Eleitoral já firmou jurisprudência clara: propaganda antecipada não exige pedido explícito de voto. Basta a promoção política com intuito eleitoral. E foi exatamente isso que ocorreu.

    A exibição durou 78 minutos no horário nobre. Setenta e oito minutos de exaltação visual, musical e simbólica de um único pré-candidato à reeleição.

    O mais grave não é apenas o conteúdo — é o método.

    Usar um evento cultural tradicional, financiado por recursos públicos, para criar um ambiente de promoção política disfarçada é uma manobra que afronta o equilíbrio do processo eleitoral. É o tipo de expediente que corrói a confiança nas instituições e banaliza os limites entre governo e campanha.

    A reação popular foi imediata. Evangélicos, famílias conservadoras e parte significativa do eleitorado enxergaram na encenação não apenas propaganda, mas provocação. A caricatura de adversários, a ironização de segmentos religiosos e a exploração simbólica de políticas públicas transformaram o desfile em um ato político-partidário explícito.

    O resultado veio em forma de rebaixamento histórico. A Acadêmicos de Niterói obteve a pior pontuação do Carnaval 2026 e caiu para a Série Ouro. Um tombo simbólico que ecoa além da Sapucaí.

    Não foi apenas uma derrota artística. Foi a primeira derrota estratégica de uma pré-campanha que parece acreditar que a máquina pública pode ser utilizada como extensão do marketing eleitoral.

    Agora, o caso caminha para o TSE. As representações protocoladas por partidos de oposição apontam para possível propaganda eleitoral antecipada. As multas são apenas o início. Dependendo da evolução dos fatos — especialmente se as imagens continuarem sendo utilizadas com finalidade política — não se descartam ações mais graves, como investigação judicial eleitoral, com pedidos de cassação e inelegibilidade.

    O episódio deixa uma pergunta incontornável: até que ponto o poder institucional pode ser usado para impulsionar um projeto eleitoral?

    A democracia exige limites. Exige igualdade de condições. Exige que a cultura não seja sequestrada por estratégias eleitorais.

    O que se viu na Sapucaí não foi espontaneidade artística. Foi cálculo político.

    E, como toda manobra excessivamente ousada, terminou em vexame público.

    Se a intenção era fortalecer uma narrativa de popularidade, o efeito foi o oposto: evidenciou a fragilidade de uma estratégia que depende de espetáculos patrocinados para tentar reacender entusiasmo.

    O Carnaval passou. A fatura política começa agora.

     

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    Fábio Roberto de Souza é jornalista – 6867/SC, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo.
    instagram: @fabiorobertodesouzas


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