A fala do presidente da Assembleia Legislativa, Mauro de Nadal, em Videira, não foi genérica. Não foi filosófica. Não foi acidental. Foi política — e com endereço certo.
Ao afirmar que “a soberba é inimiga da vitória” e que há partidos em Santa Catarina que “estão achando que são donos de todos os votos por causa de duas ondas”, Nadal atingiu diretamente o governador Jorginho Mello e o Partido Liberal, que hoje operam sob a lógica de hegemonia eleitoral no Estado.
Desde 2018, com o impulso do bolsonarismo, o PL cresceu eleitoralmente em Santa Catarina. Em 2022, consolidou-se com a eleição de Jorginho ao governo. O problema, segundo a leitura feita por emedebistas, é a transformação desse ciclo eleitoral em uma sensação de “propriedade” do eleitor catarinense.
Como se o voto tivesse dono.
Como se o resultado de duas eleições fosse um cheque em branco.
Como se a história política anterior tivesse sido apagada.
Nadal foi cirúrgico ao lembrar que “história de trabalho eles não têm”. A frase é dura — e desmonta a narrativa construída pelo PL de que o Estado começou politicamente em 2018.
Nos bastidores, cresce o incômodo no MDB com o tratamento dispensado pelo governo estadual às demais siglas. A articulação política conduzida pelo núcleo do PL parte da premissa de que os aliados devem se adaptar à liderança já estabelecida, sem espaço real de protagonismo.
O recado de Nadal rompe essa lógica.
Ele lembrou que o MDB esteve presente em mais da metade dos governos democráticos de Santa Catarina. Não se trata apenas de memória histórica, mas de estrutura partidária, capilaridade municipal e base administrativa construída ao longo de décadas.
Enquanto o PL se ancora na “onda”, o MDB reivindica trajetória.
O presidente estadual do partido, o deputado federal Carlos Chiodini, reforçou o posicionamento:
“O MDB estará na majoritária em 2026. O partido tem tamanho, história e responsabilidade para isso.”
A declaração desmonta a expectativa do entorno de Jorginho de que o MDB permaneceria automaticamente como coadjuvante na chapa.
Hoje, quatro caminhos estão na mesa: compor com João Rodrigues, apoiar Gelson Merisio, indicar vice em outra composição ou até manter diálogo com o atual governo — mas fora da lógica de submissão política.
A crítica de Nadal não é apenas retórica. É estratégica.
Ela expõe um desgaste silencioso: a percepção de que o PL governa com excesso de autoconfiança e reduz o diálogo político à lógica da força eleitoral momentânea.
Em política, ondas passam.
Estruturas permanecem.
E, ao que tudo indica, o MDB decidiu lembrar ao governador que Santa Catarina não tem dono — e que voto não é herança automática.
A disputa de 2026 começou antes do que muitos imaginavam.