Lulinha vai alegar uso indevido de seu nome em negociações com Careca do INSS

    03/03/2026 15h27 - Atualizado há 1 semana

    A estratégia da defesa de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, parece seguir um roteiro já bastante conhecido nos escândalos que rondam o entorno do poder em Brasília: quando a investigação avança, a narrativa passa a ser a de que o nome foi usado “sem autorização”, que terceiros teriam agido por conta própria e que o personagem central nada sabia do que ocorria à sua volta.

    Segundo informações divulgadas pelo portal Metrópoles, os advogados de Lulinha devem sustentar que seu nome teria sido utilizado indevidamente pela lobista Roberta Luchsinger em tratativas com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o “Careca do INSS”. A tese busca afastar qualquer envolvimento direto do empresário nas negociações investigadas pela Polícia Federal.

    A narrativa, contudo, levanta questionamentos inevitáveis. Mais uma vez, a versão apresentada tenta transformar figuras próximas — sócios, intermediários, lobistas e operadores — nos verdadeiros responsáveis pelas articulações, enquanto o personagem central seria apenas um espectador involuntário do próprio círculo de negócios que gira ao seu redor.

    Além de negar participação nas tratativas, a defesa pretende atribuir eventuais iniciativas a terceiros, como o empresário Kalil Bittar, sócio de Lulinha, e à publicitária Danielle Miranda Fonteles. A estratégia jurídica busca sustentar que o filho do presidente da República jamais autorizou o uso de sua imagem para abrir portas ou facilitar negócios.

    Em nota, o criminalista Guilherme Suguimori Santos afirmou que ninguém está autorizado a falar em nome de seu cliente e classificou as informações divulgadas como “conjecturas sem suporte na realidade”. Segundo ele, eventuais esclarecimentos serão prestados apenas ao Supremo Tribunal Federal (STF), e não à imprensa.

    O caso, porém, ganhou novo fôlego após a decisão do ministro André Mendonça de determinar a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Lulinha. A investigação também passou a avançar com base em delações de dois ex-integrantes da cúpula do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que relataram suposto envolvimento do empresário em um esquema investigado pela Polícia Federal.

    Entre os episódios analisados está uma viagem realizada em novembro do ano passado. Documentos apontam que Lulinha e o chamado “Careca do INSS” embarcaram no mesmo deslocamento, com passagens e despesas custeadas pelo operador do esquema. Relatórios da Polícia Federal indicam inclusive os assentos ocupados por ambos na primeira classe.

    Inicialmente, a defesa alegou que o fato de estarem no mesmo voo não significava que tivessem viajado juntos. Posteriormente, após surgirem registros de emissão dos bilhetes, a versão passou a admitir a viagem custeada por Antunes, mas negando qualquer acerto comercial durante o trajeto.

    A mudança de versões acabou ampliando as dúvidas em torno do caso. Em manifestações anteriores, representantes de Lulinha chegaram a afirmar que ele sequer era investigado e negaram a existência de delações que o mencionassem — afirmações que passaram a ser confrontadas pelos desdobramentos posteriores da investigação.

    Outro foco da apuração envolve a lobista Roberta Luchsinger, alvo de mandado de busca e apreensão em dezembro do ano passado. Para a Polícia Federal, ela integra o núcleo político do grupo supostamente liderado por Antônio Carlos Camilo Antunes e teria papel relevante na movimentação financeira investigada.

    Segundo os investigadores, Luchsinger mantém relação próxima com a família de Lulinha. Ela chegou a dividir uma residência no Lago Sul, em Brasília, com o empresário. Após a mudança dele para Madri, a lobista passou a frequentar o imóvel com frequência, onde teriam ocorrido encontros sociais e reuniões, inclusive com a presença do operador do INSS.

    Neta de um ex-acionista do Credit Suisse, Luchsinger também foi uma das principais doadoras da campanha presidencial de 2022. De acordo com colaborador ouvido pela Polícia Federal, ela teria intermediado a aproximação entre Lulinha e o “Careca do INSS” em tratativas relacionadas à possível comercialização de canabidiol ao Sistema Único de Saúde (SUS).

    A Polícia Federal chegou a solicitar o uso de tornozeleira eletrônica para monitorar a lobista, mas o pedido foi negado pelo ministro André Mendonça. Em contrapartida, o magistrado determinou a entrega do passaporte e proibiu sua saída do país.

    Na decisão, Mendonça destacou que a atuação de Luchsinger seria “essencial” para a movimentação de valores e para a gestão de estruturas empresariais sob suspeita de lavagem de dinheiro.

    Enquanto a defesa insiste na narrativa de desconhecimento e uso indevido do nome, as investigações seguem avançando. E, como tantas vezes já ocorreu em escândalos envolvendo o entorno do poder em Brasília, permanece no ar a mesma pergunta incômoda: seria apenas coincidência que tantos operadores, lobistas e intermediários sempre atuem em benefício de figuras próximas ao núcleo político, sem que os supostos beneficiários saibam de absolutamente nada?


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