Um fenômeno curioso — e profundamente perturbador — parece ter se instalado na Procuradoria-Geral da República sob a gestão de Paulo Gonet: uma espécie de cegueira seletiva institucional. Trata-se de um distúrbio estranho, em que a visão funciona perfeitamente quando o alvo é conveniente, mas falha de maneira quase milagrosa quando os fatos se aproximam de figuras poderosas, influentes e bem relacionadas.
Para certos investigados, a PGR enxerga até o que não existe. Para outros, não vê nem o que está escancarado à luz do dia.
Enquanto cidadãos comuns e adversários políticos são tratados com rigor implacável — muitas vezes com base em interpretações elásticas da lei — episódios envolvendo relações no mínimo constrangedoras entre ministros da mais alta corte do país e um banqueiro envolvido em denúncias bilionárias parecem desaparecer em um buraco negro institucional. Nenhuma urgência, nenhuma curiosidade investigativa, nenhum senso de dever. Apenas silêncio. Um silêncio espesso, confortável e, para muitos, conveniente.
A sucessão de fatos revelados — contratos milionários, viagens compartilhadas, relações comerciais indiretas e contatos pessoais — seria suficiente, em qualquer sistema minimamente sério, para acionar imediatamente todos os mecanismos de apuração. Mas, sob a atual chefia da PGR, a reação tem sido a mesma: inércia elegante, indiferença burocrática e uma tranquilidade quase debochada diante do que deveria causar escândalo.
O problema já não é apenas jurídico. É moral. É institucional. É civilizatório.
Afinal, que tipo de República admite que autoridades de cúpula mantenham relações íntimas, financeiras ou logísticas com personagens centrais de escândalos bilionários — e ainda assim não sejam sequer formalmente investigadas? Que tipo de Ministério Público observa tudo isso e conclui, com serenidade olímpica, que não há “indícios”?
Se essa é a régua institucional, então o conceito de indício precisa urgentemente ser redefinido — porque, ao que parece, só passa a existir quando é politicamente útil.
A postura da Procuradoria-Geral da República já ultrapassou o terreno da omissão e entrou no território da condescendência. E quanto mais o tempo passa sem investigação, mais se fortalece a percepção de que não se trata de falta de provas, mas de falta de vontade.
Ou pior: de excesso de conveniência.
Se não há irregularidade, uma investigação transparente seria a forma mais rápida de dissipar qualquer suspeita. Mas quando a autoridade responsável por investigar prefere arquivar pedidos, minimizar fatos e declarar publicamente que não vê sinais de problema, a mensagem transmitida à sociedade é devastadora: existem regras para alguns — e imunidade prática para outros.
No fim das contas, a questão é simples e brutal:
não é que os fatos sejam invisíveis.
É que, para certos olhos, enxergar pode ser perigoso demais.
A SAFADEZA É TANTA, QUE FEDE!