Terrivelmente incoerente”: quando a fé vira argumento político e não princípio moral

Opinião: Fábio Roberto de Souza

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A possível articulação envolvendo André Mendonça em apoio ao nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal levanta um debate que vai muito além de nomes: expõe, de forma preocupante, a banalização de valores que deveriam ser inegociáveis.

Quando foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro, Mendonça foi apresentado ao país como o ministro “terrivelmente evangélico”. A expressão não era apenas um rótulo — carregava uma expectativa moral. Supunha-se que ali estaria alguém guiado por princípios sólidos, compromisso com a justiça, prudência institucional e coerência ética.

Mas o que se vê agora?

A tentativa de justificar ou impulsionar uma indicação com base em identidade religiosa — como se isso fosse credencial suficiente — afronta diretamente o espírito da Constituição. O Brasil é um Estado laico. Isso não significa ignorar a fé, mas sim impedir que ela seja usada como moeda política, como selo de aprovação ou como escudo para decisões de alto impacto institucional.

Mais grave ainda é quando essa narrativa religiosa entra em choque com a prática.

Não se trata de discutir crença pessoal, mas de analisar coerência. O histórico público de atuação de figuras cotadas para a Suprema Corte deve ser avaliado à luz de critérios objetivos: respeito às garantias fundamentais, equilíbrio institucional, compromisso com o devido processo legal e histórico de decisões ou posicionamentos.

Quando o debate se reduz a “é evangélico” ou “não é evangélico”, o país perde. E perde muito.

Ao se associar a esse tipo de argumento, André Mendonça não apenas fragiliza a própria imagem construída no momento de sua indicação, como também coloca em xeque a coerência entre discurso e prática. A fé, quando instrumentalizada, deixa de ser virtude e passa a ser ferramenta.

E isso abre uma questão inevitável: a quem interessa transformar a escolha de ministros da mais alta Corte do país em um jogo de articulações políticas travestidas de afinidade religiosa?

O Supremo Tribunal Federal não é espaço para validação de identidade, mas para defesa da Constituição.

Se o critério for a fé, abre-se um precedente perigoso.
Se o critério for político, escancara-se o jogo.
Mas se o critério não for a coerência, então o problema é ainda maior.

Porque, nesse caso, não estamos diante de uma escolha — estamos diante de uma contradição institucional.

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Fábio Roberto de Souza é jornalista-6867/SC, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas


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