Gilmar Mendes ultrapassa limites e expõe um Supremo cada vez mais distante da lei

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A entrevista do ministro Gilmar Mendes ao Jornal da Globo, em 22 de abril, não foi apenas mais uma aparição pública. Foi um retrato cru de como parte da mais alta Corte do país passou a se comunicar — e, pior, a se justificar.

Se antes havia dúvidas sobre o grau de subjetividade que permeia decisões no Supremo Tribunal Federal, agora elas ganham contornos ainda mais inquietantes.

Quando a “interpretação” vira problema

Ao abordar decisões envolvendo o estado de Minas Gerais, o ministro fez declarações que abriram margem para algo gravíssimo: a percepção de que fatores pessoais poderiam influenciar julgamentos.

Não se trata de detalhe. Não se trata de retórica. Trata-se da essência do Estado de Direito.

Quando um ministro do Supremo permite que suas palavras sejam interpretadas como afastamento da estrita legalidade, o problema deixa de ser individual e passa a ser institucional.

Ataques e tensão política

O embate com o governador Romeu Zema elevou ainda mais a temperatura. A crítica política é legítima — mas o tom adotado por um integrante da Suprema Corte levanta um alerta evidente: onde termina o papel de juiz e começa o de ator político?

O Brasil já vive uma polarização intensa. Quando o Supremo entra nesse campo, a consequência é previsível: erosão de confiança.

Inquéritos que nunca terminam

Outro ponto que salta aos olhos é a defesa de investigações sem prazo claro para acabar. A ideia de que um inquérito possa atravessar ciclos eleitorais e depender de avaliações amplas sobre “momento” ou “contexto” é, no mínimo, preocupante.

Justiça não pode ser fluida. Não pode ser elástica. E, definitivamente, não pode parecer seletiva.

Quando não há previsibilidade, abre-se espaço para o pior cenário: a suspeita de uso político da máquina judicial.

O risco das próprias palavras

O maior problema da entrevista não está apenas no conteúdo — mas no efeito.

Ao falar como falou, Gilmar Mendes não apenas respondeu perguntas. Ele alimentou uma percepção que cresce no país: a de que decisões podem estar sendo guiadas por critérios que vão além da lei.

Mesmo que essa percepção não corresponda à realidade, ela já é, por si só, devastadora.

Porque Justiça não vive apenas de decisões corretas. Vive de confiança.

O Supremo precisa se olhar no espelho

O Supremo Tribunal Federal não é uma instituição qualquer. É o guardião da Constituição. Por isso, exige-se mais. Muito mais.

Declarações ambíguas, confrontos políticos e justificativas pouco técnicas não fortalecem a Corte — enfraquecem.

E quando a mais alta instância do Judiciário passa a gerar dúvidas em vez de segurança, o problema deixa de ser jurídico.

Passa a ser um problema para toda a República.


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