O que deveria ser o ápice da independência institucional virou, sem qualquer pudor, um jogo de poder. O Supremo Tribunal Federal, que deveria guardar a Constituição, é hoje tratado como peça estratégica de engenharia política.
E o nome da vez é Jorge Messias.
Às vésperas da sabatina, o que se vê não é um debate sobre notório saber jurídico ou reputação ilibada. O que está em curso é uma operação política clássica: visitas em massa a senadores, contagem antecipada de votos, jantares estratégicos e articulações de bastidores que fariam corar qualquer defensor minimamente sério da separação entre os Poderes.
Foram cerca de 77 senadores visitados. Não por acaso. Não por cortesia institucional. Mas por necessidade — necessidade de garantir votos para transformar uma indicação política em um fato consumado.
E, ainda assim, nem tudo saiu como planejado.
O silêncio de Davi Alcolumbre é ensurdecedor. Cinco meses sem sinal verde. Nenhum encontro. Nenhuma fotografia. Nenhum gesto. Em política, silêncio também fala — e, neste caso, fala muito.
Nos bastidores, a preferência era por Rodrigo Pacheco, um nome com maior aceitação e menor desgaste. Mas o governo não recuou. Porque não pode recuar.
O objetivo é claro: moldar um Supremo previsível, alinhado e funcional aos interesses do poder central.
E quando até o próprio Luiz Inácio Lula da Silva precisa entrar pessoalmente na articulação, o recado é ainda mais evidente: não se trata de escolha técnica — trata-se de controle.
A tentativa de revestir tudo isso com verniz institucional já não convence. Fala-se em mérito enquanto se negocia voto. Fala-se em Constituição enquanto se costura apoio político. Fala-se em independência enquanto se constrói alinhamento.
E o episódio chega ao limite do simbólico quando se tenta trazer elementos de religiosidade — como relatos de jejum espiritual — para um processo que deveria ser estritamente técnico e republicano. Mistura-se fé com poder, como se uma pudesse legitimar o outro.
Se aprovado, não será surpresa. Mas será sintomático.
Sintomático de um país onde as instituições são, cada vez mais, instrumentalizadas. Onde o Supremo deixa de ser contrapeso e passa a ser extensão. Onde a toga corre o risco de perder o peso da Constituição para carregar o peso da política.
E depois, quando a sociedade reage, quando a confiança desaba, quando o respeito institucional se esvai, ainda há quem finja não entender o porquê.
Mas o brasileiro entende. E está cansado.
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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas