Aos 70 anos, Gilmar Mendes não é apenas o integrante mais antigo do Supremo Tribunal Federal — é, há anos, uma das figuras mais controversas e polarizadoras de toda a República.
Se dele se esperaria sobriedade, equilíbrio e respeito institucional, o que se vê reiteradamente é o oposto: um comportamento que mistura arrogância, enfrentamento permanente e uma clara disposição de atuar como se fosse não apenas ministro, mas uma espécie de tutor da própria Corte.
Há muito tempo Gilmar deixou de ser apenas um julgador. Tornou-se protagonista político.
E, pior: protagonista de crises.
O histórico é extenso — e constrangedor. Não se trata de episódios isolados, mas de um padrão. Um padrão de ataques, de linguagem incompatível com o cargo, de intervenções que tensionam o ambiente institucional e de declarações que frequentemente ultrapassam qualquer limite de decoro.
Não por acaso, há anos seu nome está envolto em controvérsias. E não são poucas.
De ofensas públicas a autoridades, membros do Ministério Público e até jornalistas — como no episódio em que mandou “enfiar a pergunta” ao ser questionado sobre custeio de viagem — até ataques reiterados à Operação Lava Jato, chamada por ele de “método de gângster”, o que se observa é uma atuação que muitas vezes mais incendeia do que pacifica.
A lista de agressões verbais é longa: “gentalha”, “cretinos”, “cérebro de minhoca”, “microcéfalos”, “mórbida patologia psíquica”. Não são deslizes. São escolhas.
E escolhas reiteradas.
Mais recentemente, ao atacar o governador Romeu Zema com ironias sobre sotaque e insinuações de cunho pessoal, o ministro voltou a demonstrar que não reconhece limites claros entre o papel institucional e o embate político vulgar.
Mas o problema vai além das palavras.
Sobre Gilmar pairam, há anos, questionamentos que jamais foram plenamente dissipados. Fatos que alimentam suspeitas e desgastam a credibilidade da própria Corte. Entre eles, menções recorrentes a relações políticas, atuação fora dos autos e até movimentações e investimentos internacionais que, embora negados ou minimizados, seguem sendo objeto de debate público e desconfiança.
É um cenário que, no mínimo, exigiria cautela.
Mas cautela nunca foi exatamente sua marca.
Dentro do Supremo, a percepção — ainda que não oficialmente declarada — é de que Gilmar atua como uma espécie de centro de gravidade da Corte. Não raro, comporta-se como quem dita o tom, influencia rumos e, em muitos momentos, parece agir como se estivesse acima dos demais ministros.
Como se fosse o dono.
O problema é que o Supremo Tribunal Federal não foi concebido para ter donos.
Foi concebido para ser guardião da Constituição.
Quando um de seus membros passa a agir como figura política ativa, acumulando conflitos, ataques e suspeitas, o prejuízo não é apenas de imagem individual. É institucional.
E, nesse ponto, a pergunta que se impõe não é mais sobre estilo — mas sobre limites.
Porque, em qualquer democracia minimamente saudável, ministros da mais alta Corte deveriam ser lembrados por decisões técnicas, equilíbrio e respeito.
Não por polêmicas em série.
Nem por um rastro constante de controvérsias.
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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas